Design editorial e Digital Publishing: perguntas frequentes

Márcio Duarte, em 22/09/2011. Categoria: Be-a-Bá do eBook 1

Design e Digital Publishing FAQ

Para quem trabalha com projeto e produção de publicações impressas, o mundo do digital publishing pode parecer assustador, ao menos em um primeiro momento. São tantas novidades, desafios, variáveis e incertezas que é natural o surgimento de dúvidas sobre os aspectos mais práticos da atividade. Obviamente, a resposta definitiva a muitos destes questionamentos permanece em aberto, e há muitas outras perguntas dentro das respostas. Esse é um mercado em formação e as regras do jogo estão sendo definidas com a partida em andamento, mas já é possível apontar alguns caminhos profissionais seguros para quem passa os dias conferindo forma e função ao texto – e deseja manter-se assim. Pensando neste profissional e nas perguntas mais elementares que ele poderia fazer, criei uma lista de perguntas e respostas básicas sobre o assunto. Vamos a elas:

1Ainda haverá mercado para o design de publicações impressas?

Sim, tudo indica que sempre haverá mercado para o livro impresso e para quem trabalha com ele. A questão é o tamanho e o tipo desse mercado. Ainda há profissionais trabalhando com antigo Linotipo, por exemplo, para aplicações bem específicas. O livro impresso, como veículo de informação, tem apelo e qualidades próprias que não são suplantadas pelo livro digital, isso é fato. Mas a espectativa é de que, com o tempo, o mercado de publicações digitais seja dominante, justamente pelo menor número de restrições impostas pelo meio físico (distribuição, armazenamento, preço). Importante lembrar que isso deve acontecer com maior ou menor velocidade em função das caracterísitcas do país e do nicho de mercado. Aqui no Brasil, ainda há muitas limitações a serem superadas nesse território, e isso não muda da noite para o dia. Mas a era da informação digital é uma tendência que veio para ficar, isso em todas as áreas, no mundo todo. No mínimo, não ignore esse mercado. Ele pode vir a ser sua maior fonte de trabalho – e receita.

2O que acontece com o projeto gráfico?

O projeto gráfico vai continuar existindo e talvez um nome mais adequado no contexto do digital publishing seja projeto visual, pela ausência de ligação com os tradicionais processos gráficos. Mas a mudança não para por aí. As formas de se projetar publicações digitais são muito variadas, mas podemos dividí-las em duas grandes áreas: projeto de publicações de layout fixo (exemplos: apps e ePub de layout fixo) e de layout flúido (exemplos: ePub e Azw/Mobi). Para os tipos de publicações de layout fixo, as mudanças no projeto são menos drásticas, a liberdade de criação é preservada em boa parte. Para as de layout flúido, as mudanças são muito maiores e o projeto visual tem um outro caráter, menos impositivo, digamos assim (atualmente há tão pouca consistência da apresentação desse tipo de publicação digital que nestes casos mal podemos falar de “projeto”, mais isso é assunto para outro artigo). Nos dois tipos, a “diagramação” dos projetos é completamente diferente do habitual, onde ferramentas diversas, linguagens de marcação e programação são a base. Tudo isso sem um método de trabalho consolidado. Uma coisa é certa, sentiremos saudades do poético termo “arte-final” no digital publishing ;-)

3Quais os principais formatos de publicações digitais?

Atualmente, os principais são o ePub, os formatos do Kindle (Mobi/AZW), o PDF (sim, ele mesmo) e as Apps (publicações em formato de aplicativos), cada um com suas características, métodos de produção e ferramentas próprias. Para os tipos de publicação com predominância de texto, como literatura, os formatos ePub e Kindle têm sido mais utilizados. As Apps vem sendo utilizadas principalmente para revistas e jornais. O PDF segue sendo o formato “base” universal. Note que com o amadurecimento do formato ePub, espera-se que esse cenário se modifique, e outros tipos de publicação possam se beneficiar do formato.

Justamente pelos diferentes conjuntos de métodos, especialidades e ferramentas necessárias à produção dos tipos de publicação, é provável que se consolide, ao menos neste primeiro momento, a especialização no design e na produção de publicações para cada formato, principalmente para os aplicativos, que são os mais caros, variados e complexos de se produzir. A curva de aprendizado deste formato para um profissional vindo do meio impresso não é lá muito animadora. Para criação visual (WYSIWYG) de publicações no formato App há diversas soluções, como o Adobe DPS, o Quark App Studio e o Woodwing Enterprise, mas não são soluções voltadas para profissionais independentes (leia-se: custo altíssimo) e têm limitações quanto à distribuição, sendo geralmente atadas a lojas virtuais. Alternativas gratuitas existem (PugPig, Appcelerator Titanium, PhoneGap, Baker Framework, Laker Compendium), mas também incluem uma boa dose de aprendizado e testes. (Update 12/10/2011: A Adobe lançou uma versão do seu DPS para freelancers e pequenos negócios, com valor mais acessível – U$ 395,00 por app – mas ainda assim é um custo relativamente alto para a produção, em comparação com o custo de se produzir um ePub).

O ePub apresenta, particularmente, muitas vantagens para os designers, pois é menos complexo de se produzir (relativamente falando), pode ser lido em diversas plataformas, está em evolução (EPUB3), não depende de ferramentas proprietárias ou frameworks para criação, pode ser colocado à venda em vários canais de distribuição e é um padrão cada vez mais adotado pelo mercado editorial. Apesar disso, os formatos de layout fixo (PDF, apps) ainda são imbatíveis quanto à consistência do design da publicação, algo ainda não resolvido no ePub – questão de tempo.

4Porque não investir somente em eBooks no formato PDF?

Um dos motivos para a explosão do digital publishing é a popularização dos dispositivos de leitura móvel: eReaders, tablets e mesmo smartphones. Como se sabe, o conteúdo do PDF é fixo e não se adapta a cada um desses meios de forma automática. O mesmo acontece com publicações no formato app, que além disso são limitadas ao dispositivo e loja para qual foram criadas. Ponto positivo para o ePub, que tem exatamente como principal característica a flexibilidade: um só arquivo para múltiplos dispositivos, em qualquer meio de distribuição (apesar do DRM). Esse é um dos motivos pelos quais o mercado tem apostado fortemente neste formato.

5E os formatos de eBook do Kindle, da Amazon?

Os formatos do Kindle, AZW e Mobi, são exclusivos para a plataforma de eBooks da Amazon e, apesar da sua popularidade, estão entre os mais limitados entre os todos os formatos de eBook, tanto em recursos como em possibilidades de design, mas são muito importantes nesse mercado crescente, principalmente no exterior, e como a Amazon provavelmente virá para o Brasil, quem sabe se não serão muito importantes para os profissionais daqui também. (Update 18/10/2011: A Amazon atualizou seu formato de eBooks, chamado de Kindle Format 8, ou KF8, com suporte a layouts avançados nos moldes do EPUB3 – eu diria até um pouco mais avançado –, o que torna o formato Kindle um real competidor do ePub para uma grande variedade de tipos de publicações. Mais sobre isso na página correspondente da Amazon.)

6Preciso mesmo trabalhar com código?

Para os formatos flúidos ePub e Mobi/Azw, e para um trabalho profissional, sim, mas é possível utilizar o Indesign, Quark ou o LibreOffice para realizar parte do trabalho visualmente – embora isso não seja obrigatório e, em muitos casos, nem mesmo desejável. No caso de publicações digitais em formato app, se você trabalha em empresas que aderiram às soluções integradas ao Indesign/Quark para produção, trabalhar em ferramentas totalmente visuais é um cenário plenamente possível, mas mesmo nestes contextos, há espaço para adicionar recursos e funcionalidades por meio de linguagens de marcação e script. Fora desses cenários, não há como escapar do código.

O tempo não pára

Há muitas mudanças acontecendo no terreno das publicações digitais, mas essa é uma constante para quem trabalha na área. Há 26 anos, o Desktop Publishing revolucionava o mercado editorial. Muitos profissionais tiveram que se adaptar à digitalização da produção e à nova forma de se projetar publicações, explorando novas ferramentas, termos, práticas e processos. Algumas atividades perderam importância no mercado (alguém aí do paste-up?), mas outras surgiram – e floresceram. Vivemos uma época semelhante, onde grandes obstáculos vêm acompanhados de grandes oportunidades. Como naqueles tempos, a regra é uma só: quem quiser continuar nessa onda, precisa aprender a surfar.

1 comentário

  1. Luana
    07/02/2012

    Estou fazendo minha monografia da especialização neste assunto
    gostaria de receber mais informãções

    obrigada

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