Produção editorial digital: 6 bons motivos para aprender HTML e CSS

Márcio Duarte, em 18/11/2011. Categoria: Be-a-Bá do eBook 16

ebook=html+css+js

Para aqueles que estão migrando da produção editorial tradicional para os eBooks, ou planejam entrar agora no iniciante mercado de criação de livros digitais, há uma pergunta que não quer calar: preciso mesmo entender de código para criar um eBook? Não seria melhor esperar por uma solução que vá tirar dos designers visuais o peso de lidar com linhas intermináveis de código? Alguém já deve estar pensando em alguma ferramenta para resolver isso… A dúvida é mesmo cruel, já que do ponto de vista da apresentação gráfica do conteúdo, da parte prática mesmo, a divisão entre o mundo web e o editorial é vasto, muito vasto. Além disso, os métodos e ferramentas para desenvolver produtos destinados à impressão profissional já são bem conhecidos pelos profissionais e usam, de forma geral, o sistema WYSIWYG. Incluir mais um conjunto de conhecimentos com características tão diferentes na já atribulada rotina dos profissionais da área gráfica não é tão fácil assim.

Para esclarecer esse dúvida, mas também para oferecer algum “incentivo”, separei cinco argumentos fundamentais para convencer o pessoal da produção editorial print-only a entrar de vez no fantástico – às vezes nem tão fantástico assim, é verdade – mundo das linguagens web. Vamos a eles:

1. HTML e CSS são ingredientes vitais em várias iniciativas do digital publishing

Vivemos um estágio onde há diferentes tipos de livros e revistas digitais, com formas de produção e plataformas de leitura específicas, algumas abertas, outras proprietárias, e a todo momento vemos surgir novos tipos. Todos podem ser igualmente chamados de publicações digitais. Em qual deles vale a pena investir profissionalmente? Se pudéssemos apostar em um terreno seguro, acima de qualquer discussão sobre padrões, para quem quer navegar nessa onda dos eBooks, esse seria o das linguagens web. Elas são os blocos de construção básicos dos principais tipos de livros digitais, ePUB e Kindle, e estão por trás de várias outras iniciativas que transformam conteúdo web em livros eletrônicos, como o Pressbooks. Mesmo livros e revistas no formato de aplicativos podem ser construídos com a ajuda delas, e como a web não vai à lugar nenhum, é bem provável que essas tecnologias padrão sejam relevantes por muito tempo – a decisão da Adobe em focar em HTML5 para desenvolvimento mobile, deixando de lado o Flash Player para estas plataformas, é um forte sinal nesse sentido. Entender e dominar o idioma da web é meio caminho para se manter “dentro do jogo”. Fugir dele é inútil.

2. Programas totalmente WYSIWYG para criação de conteúdo web tem sérios problemas

Eles existem, e tem suas aplicações, mas são pouco flexíveis e inserem ainda mais complexidade no processo de desenvolvimento. O que se pode fazer com eles é limitado, por que a web – e o mundo do eBook, que bebe da mesma fonte – é um meio complexo, cheio de possibilidades, e deve ficar mais complexo ainda com o HTML5. Ao contrário do setor gráfico, onde ocorre uma forte padronização das tecnologias e delimitação do ambiente, métodos e programas de produção – basicamente construídos sobre o PostScript/PDF –, no mundo web não há um ambiente restrito que delimite tão fortemente o contexto de apresentação gráfica da informação. Basta imaginar os diversos tamanhos de tela disponíveis, métodos de interagir com a informação (teclado, mouse, touch), modos de cor, versões de programas, velocidades de conexão, plataformas, níveis de suporte aos padrões… Enfim, não há uma única maneira padronizada e universalmente aceita de preparar um conteúdo automaticamente diante desse cenário, pois essa é a natureza do meio: ilimitado, aberto, colaborativo. É por isso que é tão difícil criar um programa totalmente visual para conteúdo baseado em linguagens web. Até agora, não há nenhum capaz de lidar com toda a gama de possibilidades e problemas inerentes à produção, seja para a web ou para eBooks. Na prática, para resolver os problemas criados por eles é preciso ainda mais conhecimento das linguagens.

3. Conversões automáticas entre formatos não são confiáveis para uso profissional

Alguém pode argumentar que, para certos tipos de livros – de texto puro, por exemplo – é possível produzir um eBook “satisfatório” com uma simples conversão entre formatos, digamos, de PDF para ePUB, sem lidar com código. Para conversões amadoras, sem muitas expectativas ou controle sobre o resultado final, talvez seja verdade, mas essa não é uma opção para quem quer trabalhar profissionalmente com eBooks e precisa entregar um produto livre de erros. Conversões automáticas, por mais eficientes, não são capazes de antever como o arquivo será interpretado em cada eReader, e geralmente falham nesse quesito fundamental: regularidade. A única maneira garanti-la é conhecer a fundo como se comporta o código gerado e como será interpretado nos sistemas de leitura, para então identificar e solucionar os problemas… e para publicações de layout mais complexo – que devem frutificar com a chegada do EPUB3 – este tipo de conversão automática tem menos utilidade ainda.

4. Os “idiomas da web” são linguagens relativamente simples de se aprender

O HTML não é uma linguagem de programação, mas uma linguagem de marcação. A curva de aprendizado desta categoria de linguagem de codificação é relativamente pequena, pois suas regras básicas não são complexas. Em pouco tempo é possível aprender seu contexto, regras e potencialidades. Acontece o mesmo com as folhas de estilo CSS. Há muito mais desafio em aprender uma linguagem de programação “pra valer” como o PHP ou o Python.

5. Os recursos de aprendizado disponíveis são inúmeros e acessíveis

No início do desenvolvimento web, há 20 anos, aprender a lidar com HTML era para poucos: simplesmente não havia material disponível para aprender a linguagem. Não havia cursos, tutoriais, publicações, Youtube, vídeocasts e toda a sorte de materiais instrucionais disponíveis hoje. Com dedicação e persistência é possível até mesmo aprender a lidar com essas linguagens de graça – embora um bom curso presencial seja uma excelente forma também, mais eficiente para muitas pessoas.

6. Novas competências = novas oportunidades

Uma pesquisa recente mostra que a indústria editorial está tendo dificuldades em agregar competências digitais no seu fluxo de trabalho (isso nos EUA, mas acredito que o mesmo se aplica aqui). A integração do mercado editorial com tecnologias mobile está em plena expansão e profissionais capazes de lidar com os dois mundos (impresso e digital) são/serão valorizados no mercado. O nível de demanda para produção de conteúdo digital tem crescido proporcionalmente com a popularização dos dispositivos móveis, e há muitas oportunidades surgindo, em várias frentes, não só no terreno do digital publishing. Se consideramos também as projeções de crescimento do mercado de livros digitais, e da web de forma geral, não há dúvida que essa lacuna ficará mais evidente.

16 comentários

  1. Nívia Bellos
    25/08/2014

    Boa Tarde Márcio,
    Parabéns pelo texto e concordo muito contigo. Tenho 23 anos e estou iniciando no mercado de editorial e já sinto a necessidade de saber programação.
    Mesmo o e-book sendo recente e não sendo muito claro qual o melhor maneira de cria-ló, já não é possível ser um diagramador que trabalhe somente com o material impresso. Pode até não gostar de trabalhar com ele, mas tem que ter o conhecimento mínimo.

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    • Márcio Duarte
      25/08/2014

      Oi Nívia,

      É verdade, é preciso saber caminhar por estes dois mundos: digital e impresso. Não é tarefa fácil, mas é o que as tendências apontam.

      Sucesso na sua jornada.

      Abraço.

      Responder
  2. Anselmo
    11/06/2014

    Obrigado Marcio por responder
    Há algum layot pronto para abaixar,seria na forma de revista folhiada. Eu achei algumas mas esta em flesh e nao consigo modificar.
    Obrigado mais uma vez.

    Responder
  3. Anselmo
    11/06/2014

    Olá amigo.
    Gostei muito do assunto e estudo web.
    Queria saber é possível criar book na forma digital usando o css.
    Vou entregar um trabalho de PPI e fiquei muito intrassado no assunto.
    Gostei desse site.

    Responder
    • Márcio Duarte
      11/06/2014

      Obrigado, Anselmo! Sim, você pode criar um livro usando CSS para o layout e HTML para a estrutura do texto.

      Responder
  4. Marcel
    09/01/2013

    Gilmar, boa tarde, quero saber se tem interesse em criar algumas capas para nossa editora e quem sabe uma diagramação.
    Em relação aos e-books é possível que tenhamos serviços de terceiros o suficiente para quem saber fazermos algo juntos.

    Marcel Santos

    Responder
    • Gilmar
      09/01/2013

      Sim Marcel, tenho bastante interesse em trabalhar para vocês.
      Tenho as ferramentas necessárias, livros, conhecimento mais do que suficiente, tempo disponível, e, claro, ótimos preços.

      Vamos conversar e ver como podemos ser úteis um ao outro. Gosto da ideia de compartilhar e todos ganharmos. Não digo apenas ao dinheiro, mas também experiências, conhecimentos, troca de informações e descobrir novos recursos.

      Sobre eBooks, cada vez mais vou dominando o assunto e adquirindo “Know How”. Mas, confesso, ainda tenho muito pouco a oferecer.
      Juntos, na moral e com firmeza, poderemos colaborar um com o outro e conseguirmos coisas boas pela frente. Vamos trocar ideias!

      Eu aprendi muitas coisas úteis e interessantes aqui no PAGELAB. Na verdade, foi a partir daqui que ‘saquei’ que sem estudar muito, fazer cursos e praticar, não se aprende HTML nema pau.
      E sou grato por isso também!

      Bom, meu mail é gsc03bh@gmail.com – vamos conversar sobre os assuntos.

      Abraço.

      Responder
  5. Marcel
    05/01/2013

    Gilmar que bom que conseguimos resolver o problema.
    Tem interesse em fazer algumas capas e diagramação conosco?
    Mande um e-mail com valores, vamos avaliar.
    Somos uma pequena editora leve isso em consideração.

    Enquanto ao PageLab estão de parabéns.

    Marcel Santos

    Responder
    • Gilmar
      09/01/2013

      Olá Marcel. “Desculpaê” pela demora…rs!

      Gente fina, agradeço de coração tua oferta, mas sou eu quem faz a formatação, diagramação, ilustração e preparo dos arquivos para “impressão”.
      Já para os eBooks, como eu disse, uma outra pessoa está gerando os “códigos” (Mobis/ePubs).

      Se vocês já possuem uma editora, ainda que de menor porte, já estão na estrada e sabemos que o ‘filão’ é grande e tem pra todo mundo.

      Eu também trabalho com pessoas que estão “finalizando” projeto de se tronarem editora. A coisa está fluindo!

      Mas de qualquer forma Marcel, guardarei seu contato. Quem sabe numa hora destas a gente possa compartilhar e trabalhar junto, não é?

      E sim, o pagelab está de parabéns mesmo. Está cada vez melhor!
      Sou fã!

      Abraço.

      Responder
  6. Marcel
    05/01/2013

    Gilmar, também estou com esse problema.
    Para resolvê-lo convidamos um profissional web para um parceria. Ensinamos algumas funções do InDesign passamos alguns livros para ele diagramar. Feito isso fizemos um curso de produção de ebooks na Dualpixel com nosso amigo Felipe .
    Agora o rapaz compreendeu todo o processo e está trabalhando nas edições de nossos Livros.
    Agora nos dará aulas de html, css e um pouco de java.
    Mas confesso, como designer editorial tenho medo de perder ou ter que limitar minhas Idéias.

    Responder
    • Gilmar
      05/01/2013

      Algumas ideias postas em prática dão certos, outras não. É bom quando as coisas “casam”! Vocês já possuem certo ‘Know how’, encontraram a pessoa certa, fizeram curso na hora, lugar e com pessoa competente (Felipe).
      E ainda tomam aulas de um monte de coisas? Poxa!

      “Bons ventos sopram a teu favor”.

      Nossos medos e desconfianças quanto ao que virá, não podem nos paralisar. Acredito que se permitirmos a intuição orientar nossa razão e instinto, nada poderá nos deter.

      O conhecimento e o domínio das ferramentas para gerarmos livros digitais está, na minha limitada percepção, cada vez mais integrando vários conhecimentos técnicos. Mas, a parte criativa e imaginativa dos Designers, jamais será superada pela lógica ou pela “inteligência horizontalizada”, por assim dizer.

      A solução para o meu caso foi eu ter “encontrado” uma pessoa que domina bem o “html”, e esta ter gerado os códigos dos livros. Isso até eu “domar a coisa”.

      Obtive muita ajuda aqui no “pagelab”. Este site merece e precisa ter muito mais projeção. Já é, mas merece muito mais!

      Responder
  7. Gilmar
    02/12/2012

    Olá.
    Teu site e o conteúdo está cada vez melhor, mais recheado de coisas úteis e cada vez mais interessante.

    Desde a primeira vez que deixei aqui um comentário sobre “o caminho das pedras”, o qual você deixou bem claro que é preciso ir bem mais a fundo ‘na coisa”, eu, pra te falar a verdade, pouco evoluí nesse sentido.
    Ainda estou às “turras” para gerar arquivos “ePubs e Mobis” dos livros que diagramei, e que já são vendidos em livrarias pelo Brasil. – Os (as) autores (as) me pressionam de todos os lados para terem os livros digitais para vendê-los em livrarias online. Claro que já subi alguns PDF’s para alguns sites, mas sabemos bem, é bem diferente do código bem trabalhado e fluido, não é mesmo?

    Fiz e faço o que está ao meu alcance, esbarrando nos meus limites. Dominar o html a ponto de trabalhar com o código no SiGil, Calibre, Dreamweaver, etc., está sendo uma pedreira das “brabas”.

    Só de curiosidade: “Cê num faz isso por um preço especial? Te mandaria o PDF bem diagramado ou o arquivo do InDesign CS6. O que achas?

    Dá pra dar um retorno? Ou, caso não tenha interesse, o que mais “poderia” me ajudar para vencer ‘a batalha’?

    Grande abraço.

    Responder
    • Márcio Duarte
      02/12/2012

      Olá Gilmar,

      Acredito que essa é uma das maiores queixas do pessoal da produção editorial tradicional: o domínio das linguagens web. De uma hora para outra é preciso dominar processos bem diferentes daqueles que estávamos acostumados há anos. Sem falar na questão da afinidade com isso. Sinceramente penso que muitos profissionais não vão querer fazer essa transição, e outros deixarão para investir no digital publishing apenas quando os programas eliminarem a necessidade de se trabalhar com código no ePUB. Não acho que isso vá acontecer tão rápido assim, se é que vai acontecer…

      Pessoalmente, acredito que é necessário ter uma formação básica em design para web, fazer algum curso ou algo do tipo. Entrar nessa área sem conhecimento prévio torna tudo mais difícil. Há um curso online interessante do Code Academy sobre HTML e CSS básico, que é gratuito e vale a pena conferir: http://www.codecademy.com/pt/tracks/htmlcss

      Sobre o seu livro, precisaria que me enviasse por email para fazer uma cotação.

      Abraço!

      Responder
  8. Gilmar
    01/07/2012

    Excelente artigo.
    Bastante abrangente.

    Na sua opinião e visão, se é que pode nos dizer, para pessoas como eu, que não domina bem HTML e CSS, qual o “caminho das pedras” para gerarmos ePubs de qualidade? Pode nos dizer?
    Trabalho com InDesign CS6, mas “infelizmente” ainda não possuo conhecimento suficiente para, após gerar o ePub, dar-lhe o tratamento que merece e precisa.

    Clientes para o quais diagramei, formatei e ilustrei livros que foram impressos, querem os livros digitais dos mesmos.
    Qual melhor opção e orientação pode nos dar?

    Seria dominar o HTML e o CSS a todo o custo, usar um programa que faça isso, ou no InDesign CS6 mesmo dá para ajustar as “possíveis deficiências?
    Existe outro caminho viável?

    Dá para clarear isso pra gente?

    Obrigado e mais sucesso!

    Responder
    • Márcio Duarte
      01/07/2012

      Olá Gilmar,

      O Indesign sozinho não vai fazer verão. No atual estágio dos eBooks, o caminho das pedras para ePUBs de qualidade é entrar mesmo a fundo no mundo dos padrões web e dos sistemas de leitura, conhecer seus potenciais e suas particularidades.

      O problema é que há um número muito grande de problemas e possibilidades não cobertos por programas WYSIWYG e com o ePUB3 isso vai ficar ainda mais evidente. São tecnologias ainda em formação. Se quiser ter flexibilidade e controle do resultado, oferecendo um produto de qualidade, antenado com as possibilidades do digital publishing, não há outro caminho. É preciso mesmo lidar com código.

      Abraço!

      Responder

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