Notas de rodapé: ausência no iBooks Author

Márcio Duarte, em 26/01/2012. Categoria: Dicas, Laboratório do eBook 1

Uma das funcionalidades mais essenciais em todo programa de paginação, como o Indesign, QuarkXpress, Pages ou mesmo Word, é a geração automatica de notas de rodapé. É um recurso dos mais básicos e a ausência dele no iBooks Author é decepcionante, principalmente considerando que é voltado para livros didáticos, que geralmente incluem todo o tipo de solução de layout para transmitir a mensagem embutida do texto. Mas o problema não para aí. Além de não gerenciar ou criar notas automaticamente, a função de importação de conteúdo do Word – que lida muito bem com esse recurso (Fig. 1) – simplesmente apaga as notas do texto importado. Nada demais em um texto curto com poucas notas, mas em livros longos, com dezenas e, às vezes, centenas de notas, fica absurdamente clara a deficiência do programa para esse tipo de conteúdo.

Recurso nativo de importação de arquivos do Word

Figura 1: Função de importação de conteúdo a partir de um arquivo do Word.

Notas da rodapé: S.O.S

Mas há algumas soluções emergenciais, embora distantes do ideal, para esse problema. A primeira é inserir manualmente as notas em caixas de texto independentes (Insert › Text box), como objetos ancorados. Um objeto ancorado possui um ponto de referência que o mantêm ligado a esse ponto. Se a referência da nota mudar de página, o bloco ancorado o acompanhará. (Fig. 2). Essa opção fica no painel Inspector, aba Layout. Basta selecionar a caixa de texto da nota, clicar em Anchored no Inspector, e reposicionar o ponto de referência.

Recurso de objetos ancorados

Figura 2: Objeto ancorado. Note a referência (círculo azul) que marca a posição do bloco de texto em relação à nota.

A segunda opção é utilizar o recurso de glossário nativo do iBooks Author como gerenciador de notas de rodapé. O funcionamento é muito simples, basta posicionar o cursor antes da referência da nota no texto e clicar em New Glossary Term, logo acima, na barra azul. Uma entrada no glossário será criada então com a função nativa do programa. Após a criação, dentro da interface do glossário, qua fica no painel lateral do programa, o texto pode ser alterado para “Nota 1″, por exemplo (Fig. 3), mantendo somente o número da nota no texto.

Na seção "Glossário", é possível alterar o rótulo da nota de rodapé

Figura 3: Alterando a descrição da nota para algo mais inteligível.

Uma das vantagens desse recurso, é que as palavras no texto são interativas, e ganham janelas pop-up com o texto do termo selecionado (Fig. 4). É uma forma interessante de apresentação de informação com importância secundária, sem interrupção do fluxo de leitura. Além disso, como as notas ficam fora do fluxo natural, a visualização em modo retrato, que apresenta o texto em um só bloco, fica mais limpa e logicamente organizada.

Termo do Glossário, visto dentro do iBooks no iPad

Figura 4: Janela Pop-up quando vista no iBooks

Essa solução pode ser interessante, mas nos livros que devem incluir um glossário, além das notas, não se aplica. Outro problema em utilizar essa funcionalidade é que na interface do livro a palavra “Glossário” é fixa, e não há maneira de alterá-la – dentro do iBooks Author ou do iBooks, no iPad – para “Notas” ou algo mais adequado. As notas também serão incluídas na funcionalidade de cartões de estudo (Study Cards) no iBooks, que não foi feita para isso. Nada bom.

A terceira opção, e a que parece mais adequada, é utilizar as notas como notas de fim (endnotes), inserindo hyperlinks e marcadores para criar as ligações entre as notas e as referências no texto, colocando-as em uma página em separado, ao fim da publicação (Fig. 5). São necessários dois marcadores e dois links para cada nota, um para avançar até a página de notas, outro para voltar à página da referência dentro do texto. Funciona, mas é trabalho quadruplicado.

Paleta Hyperlinks e Bookmark

Figura 5: Notas de fim com marcadores e hyperlinks.

Que venha a próxima versão

O ideal mesmo é que a função de notas seja nativa no programa, mas isso certamente deve ser resolvido nas próximas versões do aplicativo. Algo baseado no glossário seria bem interessante. Até lá, soluções como essa são as únicas alternativas para inserir notas no seu iBook.

iBooks Author: uma bela ilha no meio do oceano

Márcio Duarte, em 21/01/2012. Categoria: Resenhas 1

Janela do iBooks Author

Do ponto de vista do design e da produção de livros digitais, o lançamento do iBooks Author, programa gratuito para Mac que permite a criação de livros eletrônicos de forma totalmente visual, representa um avanço, não há dúvida. É mesmo uma boa ferramenta para quem ainda se sente intimidado com a criação de eBooks com layout e interatividade avançados. Até o lançamento do programa, para criar determinados tipos de livro com recursos mais “vistosos” – como os didáticos – era necessário produzir um aplicativo (como os produzidos pelo Adobe DPS) ou se contentar com o PDF.

Quanto ao ePUB, o suporte nos eReaders é tão ruim e irregular que mal pode ser considerado uma opção real para publicações com layout complexo, sem falar que para produzir algo do tipo é necessário um elevado conhecimento das particularidades de tecnologias que compõe o ePub e dos sistemas de leitura – o que faz muitas pessoas torcerem o nariz. Criar visualmente é o modus operandi básico de quem tradicionalmente trabalha com edição de livros e a necessidade de lidar diretamente com código representou um baque forte nas espectativas dessas pessoas. A verdade é que quem esperava uma oportunidade de criar conteúdo editorial para a plataforma iOS, de forma visual, a um custo de produção menor – sem as taxas da solução da Adobe –, com interatividade e recursos avançados, encontra uma luz no fim do túnel com o iBooks Author.

Tour do iBooks Author

Quem não quer um livro livre?

Ok, o programa é um avanço em termos de produção, mas ele não elimina a necessidade de se trabalhar também com o formato ePub, por um motivo muito simples: liberdade. Seu iBook interativo, cheio de animações, enquetes e vídeos, só estará disponível para uma parcela muito pequena dos leitores – aquela com recursos para comprar um iPad ou iPhone, caríssimos por essas bandas, sem falar que para colocar à venda seu livro didático, é necessário passar por um processo bizantino para conseguir uma conta específica para venda na iBookstore e fazer o envio do seu eBook partir de um Mac com o OS X Lion instalado – existe uma forma de fazê-lo a partir do sistema anterior, o Snow Leopard, mas ela não é oficial. Para piorar, embora o iBook use descaradamente a mesma estrutura e convenções do ePub, é inviável utilizar o código gerado como ponto de partida para desenvolver um ePub, tanto pelo uso de extensões proprietárias, que permeiam boa parte do código, quanto pelas restrições legais impostas pela Apple, que fez um bom esforço para “embraralhar” o código do formato iBook. O formato KF8, do Kindle, sofre de um mal parecido. Nesse sentido, o ePUB ainda é – e continuará sendo – a melhor aposta para o mercado editorial digital de longo prazo, mesmo com todos os desafios que representa.

Exemplo de código de um arquivo iBook

Código extraído de um iBook: Parece ePub… mas não é. :(

Avançado e limitado ao mesmo tempo

O funcionamento do iBooks Author, apesar de ser uma versão 1.0, é excelente, como costuma ocorrer com todos os programas da Apple: intuitivo, simples e poderoso ao mesmo tempo. É capaz de criar livros que “enchem os olhos”, ainda que a forma utilizada para criá-los fuja completamente do estilo dos programas de editoração eletrônica, como Indesign e QuarkXpress. É muito semelhante ao Keynote, do pacote iWork, e imagino que aproveitaram boa parte do seu código-fonte durante o desenvolvimento. Mas, assim como o Keynote, seu formato proprietário acaba por limitar sua utilidade, principalmente em um universo tão amplo de dispositivos e plataformas de leitura. Sem integração com o ePub, por exemplo, para publicar seu livro em outra loja online é necessário desenvolver duas versões praticamente independentes de um mesmo conteúdo. Seria fantástico se houvesse uma integração com o ePub, mas não esperaria isso da Apple. Há uma esperança, no entanto. Há gente dentro da Canadense Kobo e no time do eReader BlueFire interessada em desenvolver algo do tipo.

Keynote e iBooks Author: irmãos gêmeos

Resumo da ópera: uma publicação no formato iBook é como uma ilha no meio do Pacífico: bela e isolada. Não há integração alguma dela com os fluxos de trabalho atuais do digital publishing, além de só poder ser colocada à venda em uma loja específica (iBookStore), para leitura em apenas um aplicativo (iBooks) de uma única plataforma (iOS). Ainda há dois agravantes que devem limitar o uso da ferramenta no Brasil: as peculiares exigências da Apple para criar uma conta específica do iTunes Connect, necessárias para colocar os livros à venda, e a obrigatoriedade de utilizar a plataforma Mac para produção e envio dos arquivos.

Quem está na chuva é para se molhar

É óbvio que a chuva de formatos que estamos observando, resultado da guerra pela soberania do digital publishing, só complica a vida de leitores, autores, editoras e demais profissionais envolvidos no mercado editorial, mas o iBook é só mais um destes formatos, em um mercado ainda na sua infância. O iBooks Author representa sim um avanço em relação ao desenvolvimento de ferramentas de criação mais acessíveis e capazes. Claro que ele traz muitas armadilhas mas, após muito tempo sem nenhuma inovação significativa nessas ferramentas, a iniciativa da Apple está contribuindo para sacudir os ânimos dos desenvolvedores, o que deve render frutos em termos de novos aplicativos. Outro efeito colateral positivo é que, mesmo entre os formatos de eBook mais díspares, como o iBook, há um interesse forte nos uso de padrões abertos da web (HTML, CSS, SVG) como tecnologias de base, até por que ninguém quer reinventar a roda. Uma análise do código de um arquivo iBook mostra exatamente isso. Não costumava ser assim há alguns anos. Já é um avanço.

eBook produzido pelo PageLab ganha selo de excelência do DBW!

Márcio Duarte, em 06/01/2012. Categoria: Notícias 11

Atualizado em 16/02/2012

Selo de Qualidade do DBWPara começar o ano, uma excelente notícia: um dos eBooks projetados aqui no PageLab em 2011 para o WWF-Brasil e para a Fundação Florestal do Estado de São Paulo, com o apoio do HSBC, o Guia de Aves da Mata Atlântica Paulista (Guide to the birds of São Paulo’s Atlantic Forest), ganhou o selo de qualidade QED (Quality, Excelence and Design) do Digital Book World, o primeiro do tipo a considerar livros digitais no setor editorial digital, em todo o mundo, em termos de inovação, em várias categorias: apps e ePubs.

Ao todo, 85 ebooks foram selecionados para receber este selo, em uma iniciativa muito importante no momento em que os eBooks começam a ganhar importância e popularidade, inclusive aqui no Brasil. Uma das principais reclamações dos leitores é a baixa qualidade dos eBooks, mesmo produzidos por grandes editoras, seja no Brasil, seja no exterior. Sem respeito ao conteúdo e à tradição centenária do livro, não há avanço sustentável para o livro eletrônico enquanto produto ou meio de expressão e informação.

“Consideramos o QED o ‘Selo de Aprovação de Boas práticas™” para ebooks – uma marca de qualidade que os editores, autores e criadores de conteúdo podem ter orgulho, assegurando que seus leitores podem adquirir a publicação com confiança. As vendas de eBooks estão crescendo dramaticamente e os leitores precisam saber que o livro que estão comprando será executado corretamente – independentemente do dispositivo de leitura – seja tablet, eReader, smartphone, ou PC – antes de comprá-lo. É muito gratificante ver que tantos editores, de toda uma gama de gêneros, estão produzindo ebooks da mais alta qualidade atualmente”.
David Blansfield, Presidente da empresa F + W Media, gestora do DBW

O anúncio completo e a lista de todos os eBooks selecionados pode ser vista no site do Digital Book World. Além de receber o selo QED, o livro ficou entre os três finalistas do Publishing Innovation Awards deste ano, na categoria Referência/Acadêmico.

O guia, produzido no formato ePub, ainda não foi disponibilizado para download, mas aviso assim que isso ocorrer aqui no blog. Atualização de 31/01/2012: O livro já está disponível para download na iBookStore, gratuitamente (é preciso uma conta americana do iTunes, a versão brasileira não servirá. Veja como criar uma neste link). Mais informações sobre a publicação – inclusive o PDF produzido para a versão impressa – podem ser encontradas no site do WWF-Brasil ou no site da Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Abaixo, algumas imagens do eBook apresentado no aplicativo iBooks, do iPad: