ePUB3: a evolução das publicações digitais

Por 15/06/2012. Categoria: Laboratório do eBook, Resenhas | 17 comentários

A sigla do momento em termos de produção de eBooks é ePUB3, a nova versão do padrão aberto de publicações digitais que promete romper diversas limitações da implementação atual: maiores recursos para layout e estruturação do conteúdo, interatividade, animações, áudio, vídeo, tipografia avançada, suporte a fórmulas matemáticas, narração de texto em voz alta, acessibilidade, entre outros goodies, abraçando uma maior diversidade de publicações, para múltiplas plataformas, em qualquer idioma, não só para livros de texto plano como esse formato tem sido geralmente aplicado.

Apesar da novidade, o fato é que ainda estamos em um estágio muito preliminar da adoção desse novo padrão (ok, estamos em um estágio preliminar em relação a eBooks de forma geral, mas essa é outra história). No momento em que escrevo este artigo, nenhum programa disponível é capaz de gerar um ePUB3 válido automaticamente (o Indesign CS6 oferece uma exportação nativa, que, apesar de experimental, pode gerar um ePUB3 válido para livros mais simples). Mas esse problema deve ser resolvido em breve. Alguns desenvolvedores anunciaram suporte nativo para criação de ePUB3, temos um leitor (Readium) e um validador (ePUBCheck) oficiais, uma utilíssima tabela de suporte aos novos recursos entre os principais dispositivos do mercado, além de dois outros programas de leitura que já suportam o formato (iBooks e AZARDI) e um bonus: a Apple anunciou aos desenvolvedores que começará a aceitá-los na sua iBookstore. Estes são sinais de que o mercado está mesmo adotando o novo padrão.

Do ponto de vista prático, as mudanças no arquivo do livro em si não são tão radicais como parecem, como veremos nesse artigo. A complexidade aparece quando os novos recursos disponibilizados pela especificação são considerados no código própriamente dito. Aí o desenvolvimento de um ePUB3 pode realmente ser visto como produção de software, e não somente produção editorial.

Vamos revisar em linhas gerais algumas das principais dúvidas sobre a nova versão, com respostas às perguntas mais óbvias – lembrando que as respostas consideram algum nível de intimidade com o código:

O que difere um ePUB2 de um ePUB3?

Apesar de oferecer uma série de novos recursos, um ePUB3 se assemelha bastante ao velho conhecido ePUB2: um arquivo compactado com a mesma extensão .epub, e a mesma estrutura básica de pastas, com eventuais imagens, fontes, vídeos e arquivos de texto. É relativamente simples transformar um ePUB2 comum em ePUB3 com poucas mudanças em partes do código – desde que não sejam adicionados novos recursos “pirotécnicos”, claro. Há um bom grau de interoperabilidade entre as versões, que “conversam” relativamente bem. A vantagem principal do ePUB3 é oferecer novas soluções padronizadas para os recursos avançados que citamos no início do artigo, baseados em padrões abertos.

Um epub3 descompactado e seus arquivos

Figura 1: um ePUB3 por dentro. Mais do mesmo, não?

Então um ePUB2 vai ser lido em um leitor ePUB3?

Sim, já que a nova especificação orienta que os novos programas de leitura ofereçam suporte retroativo à versão 2.

E um ePUB3, pode ser aberto nos eReaders atuais, que só suportam ePUB2?

Até pode, mas os eReaders do momento não foram pensados para os recursos do ePUB3. O livro provavelmente apresentará problemas de toda espécie, que vão variar de acordo com o eReader e o conteúdo da publicação. A especificação anterior, (ePUB 2.0.1) não previu compatibilidade com versões futuras, embora exista alguma flexibilidade nesse aspecto. Se deseja mesmo manter uma compatibilidade cruzada entre as versões, é necessário planejá-la de antemão e testá-la intensamente, ainda que isso seja válido para publicações sem muitos recursos de interatividade ou layout. Uma lista de melhores práticas nesse quesito pode ser vista no fórum do IDPF.

O que posso fazer de interessante em um ePUB3?

A lista de possibilidades é imensa, mas isso vai realmente depender do sistema de leitura, já que uma parte das funcionalidades não é obrigatória, como o suporte a Javascript, por exemplo. De forma geral, você pode implementar idéias interessantes como:

  • Um livro ilustrado com animações e narração em áudio que acompanha o texto;
  • Livros com texto em diversos idiomas, com caracteres especiais e até com ordem de leitura invertida – de trás para frente, como em um mangá;
  • Híbridos (app/livro) como, por exemplo, um material promocional para músicos, simulando um disco de vinil animado (single).
  • Mini-jogos, enquetes e simulações junto ao texto, muito úteis em conteúdos educacionais;
  • Publicações com streaming de vídeo e áudio, baixados on demand.
  • Um romance onde partes do conteúdo é alterado de acordo com a localização do dispositivo.

Figura 2. Vídeo com um exemplo das potencialidades do formato

Quanto à compactação/descompactação do arquivo?

Não muda. Podem ser utilizadas as mesmas ferramentas e processos de antes.

O que acontece com o sumário (arquivo NCX)?

No ePUB3, o sumário deve ser criado em um arquivo XHMTL comum, que pode ser estilizado assim como o texto. Este arquivo pode ou não ser inserido no fluxo do texto, via tag <spine> do arquivo .opf. Para compatibildade com o ePUB2, recomenda-se manter também o sumário no formato NCX, já que os futuros eReaders de ePUB3 devem ignorá-lo por padrão, mas ele não é mais obrigatório. A criação do novo documento de navegação pode até ser automatizado por scripts, com base no NCX do ePUB2.

Quanto ao arquivo .opf (package document)?

É mantido no ePUB3 e a estrutura é a mesma do ePUB2, com modificações. Algumas propriedades se tornaram obsoletas, mas podem ser mantidas para efeito de compatibilidade, pois não interferem no funcionamento do ePUB3, sendo um exemplo a seção <guide>. Já outros elementos precisam ser atualizados, como a propriedade “version”, na qual é especificada a versão do ePUB. É ela que efetivamente ativa o suporte às novas funcionalidades.

O que acontece com os demais arquivos obrigatórios (mimetype, conteiner.xml)

Permanecem intocados, nos mesmos locais de sempre.

Os arquivos HTML do conteúdo de um livro na versão 2 precisam mudar para se adaptar ao ePUB3?

De forma geral, o conteúdo dentro das tags <head> e <body> de uma publicação de texto puro, em ePUB2, pode ser mantido, mas a seção inicial dos documentos deve ser obrigatoriamente alterada para se adeaquar ao ePUB3. Como a mudança é padrão para todos eles, pode ser automatizada com a ajuda de expressões regulares, via GREP. É recomendável também usar sempre a extensão .xhtml para todos os arquivos do conteúdo.

Confira um exemplo de código recomendado para o início dos documentos .xhtml, para livros em português brasileiro:

ePUB2

<?xml version="1.0" encoding="utf-8" standalone="no"?>
<!DOCTYPE html PUBLIC “-//W3C//DTD XHTML 1.1//EN"
“http://www.w3.org/TR/xhtml11/DTD/xhtml11.dtd">
<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml">
 

ePUB3

<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"
xmlns:epub="http://www.idpf.org/2007/ops"
xml:lang="pt-BR" lang="pt-BR">

Acessibilidade

Ainda que o mesmo conteúdo de um ePUB2 possa ser interpretado corretamente pelos programas leitores de ePUB3 sem muitas alterações, ao adaptá-lo para a nova versão, é importante repensá-lo à luz da acessibilidade promovida pelas novas tags disponíveis no HTML5, como <section>, ou pela propriedade epub:type, que descrevem semanticamente a função do conteúdo que enclausuram e oferecem métodos alternativos para a interpretação do código pelos sistemas de leitura. Pessoas com deficiência visual agradecem, pois a otimização da estrutura do conteúdo vai facilitar a interpretação audível e a navegação em dispositivos com tecnologia assistiva como o iPad e seu Voice Over. Sem falar que um conteúdo bem estruturado facilita a estilização e a adaptação do livro para outros formatos. Um guia bem interessante de acessibilidade no ePUB pode ser visto aqui. Vale a leitura.

O futuro das publicações digitais? Mesmo?

Tudo isso é muito bonito, mas não seria contraprodutivo investir em uma tecnologia que se baseia em arquivo, diante da promessa do conteúdo na nuvem, acessível em qualquer lugar, apontando para o futuro? Talvez, mas no momento, nenhuma outra solução apresenta o mesmo conjunto de qualidades oferecidas pelo ePUB quando se fala de leitura digital com portabilidade e adaptação automática do conteúdo à múltiplos dispositivos, ou seja, sem necessidade de conexão, considerando diferenciais importantes como padrões abertos, acessibilidade, estruturação e navegação de conteúdo, além dos imprescindíveis metadados. Portabilidade ainda é – e talvez sempre seja – fundamental quando consideramos os altos custos e cobertura das conexões móveis. Mas esta é uma questão que permanece em aberto e só teremos uma boa resposta para essa pergunta nos próximos capítulos desse livro.

Para saber mais

Testando seus ePUBs: Calibre Content Server

Por 01/05/2012. Categoria: Dicas, Laboratório do eBook | 8 comentários

Atualização (21/01/2013): o app Calibre Companion facilita um pouco esse processo. Saiba mais

Apesar da maior parte dos dispositivos e aplicativos de leitura de livros digitais se basearem em apenas dois motores de renderização de eBooks, – Webkit e Adobe Reader Mobile SDK – não é raro encontrar variações na interpretação do código entre os programas que usam o mesmo motor, principalmente em livros com formatação mais complexa, simplesmente por que há diferentes versões e implementações desses engines. Na prática, testar o seu ePUB para garantir a ele o título de “livro multiplataforma” acaba indo além de validá-lo somente no iBooks (Webkit) ou no Adobe Digital Editions (RMSDK), dois dos maiores representantes dos referidos motores. É recomendável testá-lo também em outros programas e aparelhos de leitura, um processo que, geralmente, leva tempo e, na grande maioria dos casos, não conta com ferramentas especializadas para isso (Nota: em breve um post sobre quais eReaders e aplicativos são mais recomendados para testar seus eBooks).

Sem fios!

No caso dos eReaders com tela e-ink, as opções padrão se limitam a conectar o dispositivo ao desktop via USB para ter acesso ao espaço de armazenagem interno e só então copiar o seu livro para a pasta correspondente, de forma direta, via sistema, ou com a ajuda de outro programa, como o ADE, em um processo conhecido como sideloading. Para visualizar se a sua alteração no código foi bem sucedida, é necessário ejetar esse volume interno e, só então, atualizar a biblioteca do dispositivo… isso para cada dispositivo de teste. Executar uma tarefa como essa repetidas vezes, ao longo de semanas, não é nada produtivo.

Mas no caso de tablets e smartphones, há mais flexibilidade no processo de sideloading, que pode ser feito via Wi-Fi ou mesmo remotamente, pela web. Nesta série de artigos, veremos quais são as principais opções para testar seus livros com mais eficiência nas principais plataformas do mercado, suas vantagens e desvantagens, começando pelo…

Calibre Content Server

O Calibre, velho conhecido gerenciador de livros digitais para múltiplas plataformas, pode ser usado como um servidor de arquivos particular, baseado no sistema OPDS (Open Publication Distribution System) que é muito útil para testar seus livros diretamente via Wi-Fi, ou via web, nos programas que suportam o OPDS, como o Aldiko e o Moon+ (veja uma lista completa de programas que “conversam” com o Calibre). Assim, você pode simplesmente arrastar seu livro para a janela do Calibre e ele estará disponível diretamente na interface de adição de bibliotecas do programa de leitura do seu gadget Android que tenha acesso sem fio. Há outras opções para carregar arquivos remotamente, mas nenhuma oferece uma solução tão universal, especificamente voltada a eBooks como o servidor OPDS.

Biblioteca do Calibre e a interface do servidor de livros

Figura 1: Biblioteca do Calibre e a interface do servidor de livros

Mesmo nos dispositivos iOS (iPhone, iPad, iPod Touch), o servidor interno do Calibre é uma alternativa para carregar seus livros mais rapidamente nos programas de leitura sem conectar o dispositivo via USB. Abrindo o endereço do servidor do Calibre no Safari Mobile, é possível escolher em que aplicativo deseja abrir o arquivo ePUB: um recurso nativo do sistema da Apple.

Abrindo o servidor do Calibre pelo Safari Mobile, no iPad

Figura 2: Abrindo o servidor do Calibre pelo Safari Mobile, no iPad

Vantagens

  • Funcionalidade grátis e multiplataforma;
  • Atualização sem fios: é mais flexível que o sideloading tradicional via USB, permitindo que possa ser usado em vários aparelhos ao mesmo tempo;
  • Funciona com os aplicativos de leitura também no emulador do Android, caso você não tenha um dispositivo real (mais sobre isso, em um próximo artigo);
  • A solução mais universal para testar seus livros nos aplicativos de ePUB do Android (e em alguns eReaders também);
  • Pode ser usado também para criar a sua biblioteca pessoal na nuvem.

Desvantagens

  • Não é uma solução criada especificamente para produtores de eBooks, como o Book Proofer da Apple é para o aplicativo iBooks (iOS). Nele, o livro pode ser editado sem envio para a biblioteca e atualização no eReader, todo o processo é feito pelo aplicativo, que atualiza constantemente o iBooks a cada alteração. Mas como o Calibre não foi criado com essa finalidade, não há muita esperança nesse sentido.

Como usar

1º passo: no Calibre, vá até o menu “Preferências > Preferências” e clique na opção “Compartilhando pela rede”. Verifique as configurações e ative o servidor no botão “Iniciar servidor”.

Janela de preferências do Calibre

Figura 3: Janela de preferências do Calibre

2º passo: adicione o seu livro à biblioteca do Calibre;

3º passo: ainda no computador, verifique o seu número IP na rede local (saiba como encontrar o seu IP no Windows e no Mac).

Janela de rede nas preferências do sistema do Mac

Figura 4 : Janela de rede nas preferências do sistema do Mac

4º passo: abra o programa de leitura desejado (Aldiko, Moon+, FBReader etc) no seu dispositivo (tablet, smartphone) e localize a função para adicionar um novo catálogo. No Aldiko, por exemplo, clique no ícone de carrinho de compras, depois do botão do aparelho e em “Meus catálogos”. Clicando no botão “+” você adiciona um novo catálogo. Insira um nome para o seu catálogo e o seu IP, seguido da porta especificada nas preferências do Calibre. Um exemplo: 192.168.1.20:8080 (o valor após os dois pontos é o número da porta).

Inserção do endereço do servidor. À esquerda, no app Moon+, à direita, no Aldiko

Figura 5: Inserção do endereço do servidor. À esquerda, no app Moon+, à direita, no Aldiko

Abrindo o link para o servidor você encontrará todos os livros no catálogo do Calibre que estão no seu desktop. De lá você pode adicionar livro à biblioteca do aplicativo.

 Interface do catálogo no Moon+ e no Aldiko

Figura 6: Interface do catálogo no Moon+ e no Aldiko, com todos os livros da biblioteca criada no desktop

5º passo: Para visualizar no eReader as alterações no código do seu livro feitas a partir do desktop, adicione o livro novamente à biblioteca do Calibre e atualize o catálogo do aplicativo de leitura (clique no botão voltar do seu dispositivo e abra novamente o link).

Não há dúvidas que esse processo está longe do ideal. Testar livros nos ereaders, tablets ou smartphones ainda é um processo pouco eficiente, mas a solução oferecida pelo Calibre já auxilia nessa etapa. No próximo artigo da série, veremos como uma abordagem alternativa para testar seus livros durante o desenvolvimento: pela dobradinha Wi-Fi/FTP.

Atualização (21/01/2013): O desenvolvedor do Calibre lançou um aplicativo (Calibre Companion, pago, só para Android) para facilitar o gerenciamento de livros da sua biblioteca que pode ser usado para reduzir os passos para testar seus livros nos dispositivos Android. Em vez de abrir o servidor de arquivos do Calibre em cada app de leitura para atualizar o livro, como explicado neste artigo, o app oferece uma interface única, via WiFi, para carregar o seu livro em qualquer programa de leitura instalado no seu dispositivo Android (figura 7). Se você precisa realizar essa tarefa muitas vezes no Android, vale o preço.

Calibre Companion

Figura 7: Interface do Calibre Companion para carregamento de eBooks para os apps de leitura.

Criando publicações digitais para múltiplas resoluções via Adobe DPS

Por 12/04/2012. Categoria: Dicas, Tutoriais | 1 comentário

Adobe DPS e iPad 3Com a resolução altíssima do novo iPad, como fica a criação de publicações via Adobe DPS? Quais as melhores práticas e métodos de trabalho? Para responder a estas e a outras perguntas, o Adobe disponibilizou recentemente um screencast voltado a esse assunto, onde o evangelista de Digital Publishing Colin Fleming mostra na prática como criar folios para múltiplas resoluções de tela, utilizando o conceito de “renditions”. Com ele, será necessário criar um folio otimizado para cada resolução de tela, o que deve evitar, a princípio, problemas de performance no aplicativo final. Fica claro também que o PDF é o formato mais adequado para os assets do seu folio, contribuindo muito para reduzir o tamanho dos arquivos.

ASSISTA AO SCREENCAST » (em inglês, com 54 minutos de duração)

Mais informações sobre as mudanças no fluxo de trabalho no DPS ocasionadas pelo novo iPad podem ser encontradas no respectivo PDF da Adobe sobre o assunto.