Testando seus ePUBs: Calibre Content Server

Márcio Duarte, em 01/05/2012. Categoria: Dicas, Laboratório do eBook 8

Atualização (21/01/2013): o app Calibre Companion facilita um pouco esse processo. Saiba mais

Apesar da maior parte dos dispositivos e aplicativos de leitura de livros digitais se basearem em apenas dois motores de renderização de eBooks, – Webkit e Adobe Reader Mobile SDK – não é raro encontrar variações na interpretação do código entre os programas que usam o mesmo motor, principalmente em livros com formatação mais complexa, simplesmente por que há diferentes versões e implementações desses engines. Na prática, testar o seu ePUB para garantir a ele o título de “livro multiplataforma” acaba indo além de validá-lo somente no iBooks (Webkit) ou no Adobe Digital Editions (RMSDK), dois dos maiores representantes dos referidos motores. É recomendável testá-lo também em outros programas e aparelhos de leitura, um processo que, geralmente, leva tempo e, na grande maioria dos casos, não conta com ferramentas especializadas para isso (Nota: em breve um post sobre quais eReaders e aplicativos são mais recomendados para testar seus eBooks).

Sem fios!

No caso dos eReaders com tela e-ink, as opções padrão se limitam a conectar o dispositivo ao desktop via USB para ter acesso ao espaço de armazenagem interno e só então copiar o seu livro para a pasta correspondente, de forma direta, via sistema, ou com a ajuda de outro programa, como o ADE, em um processo conhecido como sideloading. Para visualizar se a sua alteração no código foi bem sucedida, é necessário ejetar esse volume interno e, só então, atualizar a biblioteca do dispositivo… isso para cada dispositivo de teste. Executar uma tarefa como essa repetidas vezes, ao longo de semanas, não é nada produtivo.

Mas no caso de tablets e smartphones, há mais flexibilidade no processo de sideloading, que pode ser feito via Wi-Fi ou mesmo remotamente, pela web. Nesta série de artigos, veremos quais são as principais opções para testar seus livros com mais eficiência nas principais plataformas do mercado, suas vantagens e desvantagens, começando pelo…

Calibre Content Server

O Calibre, velho conhecido gerenciador de livros digitais para múltiplas plataformas, pode ser usado como um servidor de arquivos particular, baseado no sistema OPDS (Open Publication Distribution System) que é muito útil para testar seus livros diretamente via Wi-Fi, ou via web, nos programas que suportam o OPDS, como o Aldiko e o Moon+ (veja uma lista completa de programas que “conversam” com o Calibre). Assim, você pode simplesmente arrastar seu livro para a janela do Calibre e ele estará disponível diretamente na interface de adição de bibliotecas do programa de leitura do seu gadget Android que tenha acesso sem fio. Há outras opções para carregar arquivos remotamente, mas nenhuma oferece uma solução tão universal, especificamente voltada a eBooks como o servidor OPDS.

Biblioteca do Calibre e a interface do servidor de livros

Figura 1: Biblioteca do Calibre e a interface do servidor de livros

Mesmo nos dispositivos iOS (iPhone, iPad, iPod Touch), o servidor interno do Calibre é uma alternativa para carregar seus livros mais rapidamente nos programas de leitura sem conectar o dispositivo via USB. Abrindo o endereço do servidor do Calibre no Safari Mobile, é possível escolher em que aplicativo deseja abrir o arquivo ePUB: um recurso nativo do sistema da Apple.

Abrindo o servidor do Calibre pelo Safari Mobile, no iPad

Figura 2: Abrindo o servidor do Calibre pelo Safari Mobile, no iPad

Vantagens

  • Funcionalidade grátis e multiplataforma;
  • Atualização sem fios: é mais flexível que o sideloading tradicional via USB, permitindo que possa ser usado em vários aparelhos ao mesmo tempo;
  • Funciona com os aplicativos de leitura também no emulador do Android, caso você não tenha um dispositivo real (mais sobre isso, em um próximo artigo);
  • A solução mais universal para testar seus livros nos aplicativos de ePUB do Android (e em alguns eReaders também);
  • Pode ser usado também para criar a sua biblioteca pessoal na nuvem.

Desvantagens

  • Não é uma solução criada especificamente para produtores de eBooks, como o Book Proofer da Apple é para o aplicativo iBooks (iOS). Nele, o livro pode ser editado sem envio para a biblioteca e atualização no eReader, todo o processo é feito pelo aplicativo, que atualiza constantemente o iBooks a cada alteração. Mas como o Calibre não foi criado com essa finalidade, não há muita esperança nesse sentido.

Como usar

1º passo: no Calibre, vá até o menu “Preferências > Preferências” e clique na opção “Compartilhando pela rede”. Verifique as configurações e ative o servidor no botão “Iniciar servidor”.

Janela de preferências do Calibre

Figura 3: Janela de preferências do Calibre

2º passo: adicione o seu livro à biblioteca do Calibre;

3º passo: ainda no computador, verifique o seu número IP na rede local (saiba como encontrar o seu IP no Windows e no Mac).

Janela de rede nas preferências do sistema do Mac

Figura 4 : Janela de rede nas preferências do sistema do Mac

4º passo: abra o programa de leitura desejado (Aldiko, Moon+, FBReader etc) no seu dispositivo (tablet, smartphone) e localize a função para adicionar um novo catálogo. No Aldiko, por exemplo, clique no ícone de carrinho de compras, depois do botão do aparelho e em “Meus catálogos”. Clicando no botão “+” você adiciona um novo catálogo. Insira um nome para o seu catálogo e o seu IP, seguido da porta especificada nas preferências do Calibre. Um exemplo: 192.168.1.20:8080 (o valor após os dois pontos é o número da porta).

Inserção do endereço do servidor. À esquerda, no app Moon+, à direita, no Aldiko

Figura 5: Inserção do endereço do servidor. À esquerda, no app Moon+, à direita, no Aldiko

Abrindo o link para o servidor você encontrará todos os livros no catálogo do Calibre que estão no seu desktop. De lá você pode adicionar livro à biblioteca do aplicativo.

 Interface do catálogo no Moon+ e no Aldiko

Figura 6: Interface do catálogo no Moon+ e no Aldiko, com todos os livros da biblioteca criada no desktop

5º passo: Para visualizar no eReader as alterações no código do seu livro feitas a partir do desktop, adicione o livro novamente à biblioteca do Calibre e atualize o catálogo do aplicativo de leitura (clique no botão voltar do seu dispositivo e abra novamente o link).

Não há dúvidas que esse processo está longe do ideal. Testar livros nos ereaders, tablets ou smartphones ainda é um processo pouco eficiente, mas a solução oferecida pelo Calibre já auxilia nessa etapa. No próximo artigo da série, veremos como uma abordagem alternativa para testar seus livros durante o desenvolvimento: pela dobradinha Wi-Fi/FTP.

Atualização (21/01/2013): O desenvolvedor do Calibre lançou um aplicativo (Calibre Companion, pago, só para Android) para facilitar o gerenciamento de livros da sua biblioteca que pode ser usado para reduzir os passos para testar seus livros nos dispositivos Android. Em vez de abrir o servidor de arquivos do Calibre em cada app de leitura para atualizar o livro, como explicado neste artigo, o app oferece uma interface única, via WiFi, para carregar o seu livro em qualquer programa de leitura instalado no seu dispositivo Android (figura 7). Se você precisa realizar essa tarefa muitas vezes no Android, vale o preço.

Calibre Companion

Figura 7: Interface do Calibre Companion para carregamento de eBooks para os apps de leitura.

Criando publicações digitais para múltiplas resoluções via Adobe DPS

Márcio Duarte, em 12/04/2012. Categoria: Dicas, Tutoriais 1

Adobe DPS e iPad 3Com a resolução altíssima do novo iPad, como fica a criação de publicações via Adobe DPS? Quais as melhores práticas e métodos de trabalho? Para responder a estas e a outras perguntas, o Adobe disponibilizou recentemente um screencast voltado a esse assunto, onde o evangelista de Digital Publishing Colin Fleming mostra na prática como criar folios para múltiplas resoluções de tela, utilizando o conceito de “renditions”. Com ele, será necessário criar um folio otimizado para cada resolução de tela, o que deve evitar, a princípio, problemas de performance no aplicativo final. Fica claro também que o PDF é o formato mais adequado para os assets do seu folio, contribuindo muito para reduzir o tamanho dos arquivos.

ASSISTA AO SCREENCAST » (em inglês, com 54 minutos de duração)

Mais informações sobre as mudanças no fluxo de trabalho no DPS ocasionadas pelo novo iPad podem ser encontradas no respectivo PDF da Adobe sobre o assunto.

Notas de rodapé: ausência no iBooks Author

Márcio Duarte, em 26/01/2012. Categoria: Dicas, Laboratório do eBook 2

Uma das funcionalidades mais essenciais em todo programa de paginação, como o Indesign, QuarkXpress, Pages ou mesmo Word, é a geração automatica de notas de rodapé. É um recurso dos mais básicos e a ausência dele no iBooks Author é decepcionante, principalmente considerando que é voltado para livros didáticos, que geralmente incluem todo o tipo de solução de layout para transmitir a mensagem embutida do texto. Mas o problema não para aí. Além de não gerenciar ou criar notas automaticamente, a função de importação de conteúdo do Word – que lida muito bem com esse recurso (Fig. 1) – simplesmente apaga as notas do texto importado. Nada demais em um texto curto com poucas notas, mas em livros longos, com dezenas e, às vezes, centenas de notas, fica absurdamente clara a deficiência do programa para esse tipo de conteúdo.

Recurso nativo de importação de arquivos do Word

Figura 1: Função de importação de conteúdo a partir de um arquivo do Word.

Notas da rodapé: S.O.S

Mas há algumas soluções emergenciais, embora distantes do ideal, para esse problema. A primeira é inserir manualmente as notas em caixas de texto independentes (Insert › Text box), como objetos ancorados. Um objeto ancorado possui um ponto de referência que o mantêm ligado a esse ponto. Se a referência da nota mudar de página, o bloco ancorado o acompanhará. (Fig. 2). Essa opção fica no painel Inspector, aba Layout. Basta selecionar a caixa de texto da nota, clicar em Anchored no Inspector, e reposicionar o ponto de referência.

Recurso de objetos ancorados

Figura 2: Objeto ancorado. Note a referência (círculo azul) que marca a posição do bloco de texto em relação à nota.

A segunda opção é utilizar o recurso de glossário nativo do iBooks Author como gerenciador de notas de rodapé. O funcionamento é muito simples, basta posicionar o cursor antes da referência da nota no texto e clicar em New Glossary Term, logo acima, na barra azul. Uma entrada no glossário será criada então com a função nativa do programa. Após a criação, dentro da interface do glossário, qua fica no painel lateral do programa, o texto pode ser alterado para “Nota 1″, por exemplo (Fig. 3), mantendo somente o número da nota no texto.

Na seção "Glossário", é possível alterar o rótulo da nota de rodapé

Figura 3: Alterando a descrição da nota para algo mais inteligível.

Uma das vantagens desse recurso, é que as palavras no texto são interativas, e ganham janelas pop-up com o texto do termo selecionado (Fig. 4). É uma forma interessante de apresentação de informação com importância secundária, sem interrupção do fluxo de leitura. Além disso, como as notas ficam fora do fluxo natural, a visualização em modo retrato, que apresenta o texto em um só bloco, fica mais limpa e logicamente organizada.

Termo do Glossário, visto dentro do iBooks no iPad

Figura 4: Janela Pop-up quando vista no iBooks

Essa solução pode ser interessante, mas nos livros que devem incluir um glossário, além das notas, não se aplica. Outro problema em utilizar essa funcionalidade é que na interface do livro a palavra “Glossário” é fixa, e não há maneira de alterá-la – dentro do iBooks Author ou do iBooks, no iPad – para “Notas” ou algo mais adequado. As notas também serão incluídas na funcionalidade de cartões de estudo (Study Cards) no iBooks, que não foi feita para isso. Nada bom.

A terceira opção, e a que parece mais adequada, é utilizar as notas como notas de fim (endnotes), inserindo hyperlinks e marcadores para criar as ligações entre as notas e as referências no texto, colocando-as em uma página em separado, ao fim da publicação (Fig. 5). São necessários dois marcadores e dois links para cada nota, um para avançar até a página de notas, outro para voltar à página da referência dentro do texto. Funciona, mas é trabalho quadruplicado.

Paleta Hyperlinks e Bookmark

Figura 5: Notas de fim com marcadores e hyperlinks.

Que venha a próxima versão

O ideal mesmo é que a função de notas seja nativa no programa, mas isso certamente deve ser resolvido nas próximas versões do aplicativo. Algo baseado no glossário seria bem interessante. Até lá, soluções como essa são as únicas alternativas para inserir notas no seu iBook.