Digital publishing em 2013:
pé no chão

Márcio Duarte, em 27/12/2013. Categoria: Blog, Notícias 0

Pé no chão

Provavelmente 2013 foi o ano mais “pé no chão” do digital publishing desde o surgimento do Kindle, em 2007, uma data considerada bem marcante nessa área, com todo tipo de previsões sobre o fim do livro impresso.

Hoje assistimos às vendas de eBooks desaquecendo no principal mercado mundial, dúvidas em relação ao futuro do livro ilustrado digital – que ainda não encontrou o seu caminho – e uma parcela importante dos leitores mais jovens assumindo sua preferência pelo cheiro do papel.

A convivência pacífica entre livro impresso e digital tem sido mantida. Ao contrário do que ocorreu na indústria fonográfica, na qual a distribuição digital reduziu drasticamente o uso do CD, o eBook não tem representado uma mudança disruptiva para o impresso, mas um caminho complementar, com suas características particulares – pelo menos por enquanto.

Desafio maior, tanto para impresso quanto para digital, está na concorrência entre leitura e a multitude de opções de entretenimento que se encontra hoje: cinema, games, música, apps e a própria web.

Do autor ao leitor, sem intermediários

O livro digital tem sim suas belas vantagens em relação ao impresso. Vamos ao óbvio: portabilidade, armazenamento e distribuição. Mas não resta dúvida de que, para quem efetivamente cria o conteúdo, a maior promessa do digital é a conexão direta com o público leitor e a descentralização dos meios para monetizar essa conexão, ou seja, ferramentas de publicação e criação de conteúdo acessíveis. O potencial disruptivo está aí.

“A web aberta é o cenário mais promissor para o conteúdo digital, e não necessariamente um formato de livro específico”

Olhando por esse ângulo, a web aberta é o cenário mais promissor para o conteúdo digital, e não necessariamente um formato de livro específico, que acaba preservando o mesmo modelo vertical do mercado editorial tradicional e das grandes empresas de tecnologia. Um formato aberto, multi-dispositivo e tecnologicamente abrangente ainda não existe na prática.

Quem estiver à busca de independência – quem não está – e souber desenvolver com propriedade sua plataforma de autor na web não tem do que reclamar, as oportunidades e ferramentas estão aí, ainda que muito fragmentadas.

Fui testemunha de iniciativas bem sucedidas nesse sentido. Elas têm algo em comum: os autores foram além do próprio texto e assumiram o papel de empreendedores, tirando máximo proveito do marketing digital, assumindo o controle do destino das suas iniciativas.

Retrospectiva

A exemplo do ano anterior, apresento uma breve restrospectiva interativa com alguns dos principais fatos que marcaram o editorial digital. Você pode acessá-la pelo botão abaixo:

Digital Publishing: linha do tempo 2013

Um excelente 2014! Obrigado pela visita! :)

Crédito da foto deste artigo: chubstock (cc)

Digital Publishing 2012: retrospectiva

Márcio Duarte, em 30/12/2012. Categoria: Blog, Notícias 4


O que mais marcou o mercado editorial digital em 2012? Esse foi um ano agitado para o digital publishing, com a chegada de grandes players internacionais (Amazon, Apple e Kobo), abertura de lojas online, parceiras com editoras daqui, avanços técnicos dos dispositivos, especificações e por aí vai. Para fazer um apanhado dessas notícias, apresento aqui no PageLab uma linha do tempo interativa com a restrospectiva, que você encontra clicando no botão abaixo.

Digital Publishing: linha do tempo 2012

É interessante ver o contraste entre grandes lançamentos de aparelhos ultra-modernos e o desinteresse em relação à leitura no Brasil, apresentado na pesquisa Retratos da Leitura. Espero que, de 2013 em diante, esse quadro se reverta, e essas “modernidades” possam contribuir para que as pessoas tenham mais acesso e interesse pelos livros.

Não gosto muito de previsões, mas tudo indica que o ePUB3 se consolidará cada vez mais no mercado (apesar do protecionismo) e livros digitais feitos com cuidado e inspiração devem ser cada vez mais valorizados!

Obrigado pela sua visita ao blog neste ano! Um excelente 2013!

Crédito da foto deste artigo: Dominic’s pics (cc)

Design editorial e Digital Publishing: perguntas frequentes

Márcio Duarte, em 22/09/2011. Categoria: Be-a-Bá do eBook 1

Design e Digital Publishing FAQ

Para quem trabalha com projeto e produção de publicações impressas, o mundo do digital publishing pode parecer assustador, ao menos em um primeiro momento. São tantas novidades, desafios, variáveis e incertezas que é natural o surgimento de dúvidas sobre os aspectos mais práticos da atividade. Obviamente, a resposta definitiva a muitos destes questionamentos permanece em aberto, e há muitas outras perguntas dentro das respostas. Esse é um mercado em formação e as regras do jogo estão sendo definidas com a partida em andamento, mas já é possível apontar alguns caminhos profissionais seguros para quem passa os dias conferindo forma e função ao texto – e deseja manter-se assim. Pensando neste profissional e nas perguntas mais elementares que ele poderia fazer, criei uma lista de perguntas e respostas básicas sobre o assunto. Vamos a elas:

1Ainda haverá mercado para o design de publicações impressas?

Sim, tudo indica que sempre haverá mercado para o livro impresso e para quem trabalha com ele. A questão é o tamanho e o tipo desse mercado. Ainda há profissionais trabalhando com antigo Linotipo, por exemplo, para aplicações bem específicas. O livro impresso, como veículo de informação, tem apelo e qualidades próprias que não são suplantadas pelo livro digital, isso é fato. Mas a espectativa é de que, com o tempo, o mercado de publicações digitais seja dominante, justamente pelo menor número de restrições impostas pelo meio físico (distribuição, armazenamento, preço). Importante lembrar que isso deve acontecer com maior ou menor velocidade em função das caracterísitcas do país e do nicho de mercado. Aqui no Brasil, ainda há muitas limitações a serem superadas nesse território, e isso não muda da noite para o dia. Mas a era da informação digital é uma tendência que veio para ficar, isso em todas as áreas, no mundo todo. No mínimo, não ignore esse mercado. Ele pode vir a ser sua maior fonte de trabalho – e receita.

2O que acontece com o projeto gráfico?

O projeto gráfico vai continuar existindo e talvez um nome mais adequado no contexto do digital publishing seja projeto visual, pela ausência de ligação com os tradicionais processos gráficos. Mas a mudança não para por aí. As formas de se projetar publicações digitais são muito variadas, mas podemos dividí-las em duas grandes áreas: projeto de publicações de layout fixo (exemplos: apps e ePub de layout fixo) e de layout flúido (exemplos: ePub e Azw/Mobi). Para os tipos de publicações de layout fixo, as mudanças no projeto são menos drásticas, a liberdade de criação é preservada em boa parte. Para as de layout flúido, as mudanças são muito maiores e o projeto visual tem um outro caráter, menos impositivo, digamos assim (atualmente há tão pouca consistência da apresentação desse tipo de publicação digital que nestes casos mal podemos falar de “projeto”, mais isso é assunto para outro artigo). Nos dois tipos, a “diagramação” dos projetos é completamente diferente do habitual, onde ferramentas diversas, linguagens de marcação e programação são a base. Tudo isso sem um método de trabalho consolidado. Uma coisa é certa, sentiremos saudades do poético termo “arte-final” no digital publishing ;-)

3Quais os principais formatos de publicações digitais?

Atualmente, os principais são o ePub, os formatos do Kindle (Mobi/AZW), o PDF (sim, ele mesmo) e as Apps (publicações em formato de aplicativos), cada um com suas características, métodos de produção e ferramentas próprias. Para os tipos de publicação com predominância de texto, como literatura, os formatos ePub e Kindle têm sido mais utilizados. As Apps vem sendo utilizadas principalmente para revistas e jornais. O PDF segue sendo o formato “base” universal. Note que com o amadurecimento do formato ePub, espera-se que esse cenário se modifique, e outros tipos de publicação possam se beneficiar do formato.

Justamente pelos diferentes conjuntos de métodos, especialidades e ferramentas necessárias à produção dos tipos de publicação, é provável que se consolide, ao menos neste primeiro momento, a especialização no design e na produção de publicações para cada formato, principalmente para os aplicativos, que são os mais caros, variados e complexos de se produzir. A curva de aprendizado deste formato para um profissional vindo do meio impresso não é lá muito animadora. Para criação visual (WYSIWYG) de publicações no formato App há diversas soluções, como o Adobe DPS, o Quark App Studio e o Woodwing Enterprise, mas não são soluções voltadas para profissionais independentes (leia-se: custo altíssimo) e têm limitações quanto à distribuição, sendo geralmente atadas a lojas virtuais. Alternativas gratuitas existem (PugPig, Appcelerator Titanium, PhoneGap, Baker Framework, Laker Compendium), mas também incluem uma boa dose de aprendizado e testes. (Update 12/10/2011: A Adobe lançou uma versão do seu DPS para freelancers e pequenos negócios, com valor mais acessível – U$ 395,00 por app – mas ainda assim é um custo relativamente alto para a produção, em comparação com o custo de se produzir um ePub).

O ePub apresenta, particularmente, muitas vantagens para os designers, pois é menos complexo de se produzir (relativamente falando), pode ser lido em diversas plataformas, está em evolução (EPUB3), não depende de ferramentas proprietárias ou frameworks para criação, pode ser colocado à venda em vários canais de distribuição e é um padrão cada vez mais adotado pelo mercado editorial. Apesar disso, os formatos de layout fixo (PDF, apps) ainda são imbatíveis quanto à consistência do design da publicação, algo ainda não resolvido no ePub – questão de tempo.

4Porque não investir somente em eBooks no formato PDF?

Um dos motivos para a explosão do digital publishing é a popularização dos dispositivos de leitura móvel: eReaders, tablets e mesmo smartphones. Como se sabe, o conteúdo do PDF é fixo e não se adapta a cada um desses meios de forma automática. O mesmo acontece com publicações no formato app, que além disso são limitadas ao dispositivo e loja para qual foram criadas. Ponto positivo para o ePub, que tem exatamente como principal característica a flexibilidade: um só arquivo para múltiplos dispositivos, em qualquer meio de distribuição (apesar do DRM). Esse é um dos motivos pelos quais o mercado tem apostado fortemente neste formato.

5E os formatos de eBook do Kindle, da Amazon?

Os formatos do Kindle, AZW e Mobi, são exclusivos para a plataforma de eBooks da Amazon e, apesar da sua popularidade, estão entre os mais limitados entre os todos os formatos de eBook, tanto em recursos como em possibilidades de design, mas são muito importantes nesse mercado crescente, principalmente no exterior, e como a Amazon provavelmente virá para o Brasil, quem sabe se não serão muito importantes para os profissionais daqui também. (Update 18/10/2011: A Amazon atualizou seu formato de eBooks, chamado de Kindle Format 8, ou KF8, com suporte a layouts avançados nos moldes do EPUB3 – eu diria até um pouco mais avançado –, o que torna o formato Kindle um real competidor do ePub para uma grande variedade de tipos de publicações. Mais sobre isso na página correspondente da Amazon.)

6Preciso mesmo trabalhar com código?

Para os formatos flúidos ePub e Mobi/Azw, e para um trabalho profissional, sim, mas é possível utilizar o Indesign, Quark ou o LibreOffice para realizar parte do trabalho visualmente – embora isso não seja obrigatório e, em muitos casos, nem mesmo desejável. No caso de publicações digitais em formato app, se você trabalha em empresas que aderiram às soluções integradas ao Indesign/Quark para produção, trabalhar em ferramentas totalmente visuais é um cenário plenamente possível, mas mesmo nestes contextos, há espaço para adicionar recursos e funcionalidades por meio de linguagens de marcação e script. Fora desses cenários, não há como escapar do código.

O tempo não pára

Há muitas mudanças acontecendo no terreno das publicações digitais, mas essa é uma constante para quem trabalha na área. Há 26 anos, o Desktop Publishing revolucionava o mercado editorial. Muitos profissionais tiveram que se adaptar à digitalização da produção e à nova forma de se projetar publicações, explorando novas ferramentas, termos, práticas e processos. Algumas atividades perderam importância no mercado (alguém aí do paste-up?), mas outras surgiram – e floresceram. Vivemos uma época semelhante, onde grandes obstáculos vêm acompanhados de grandes oportunidades. Como naqueles tempos, a regra é uma só: quem quiser continuar nessa onda, precisa aprender a surfar.