iBooks desktop: os livros digitais invadem o Mac

Márcio Duarte, em 10/06/2013. Categoria: Notícias 0

iBooks no finderOs aficcionados por leitura digital e por Macs tiveram uma boa notícia hoje: foi anunciada durante o Keynote da WWDC 2013 uma nova versão desktop do iBooks, o aplicativo de leitura da Apple, antes disponível apenas nos iDevices: iPad, iPhone e iPod Touch. O programa rodará na próxima versão do sistema operacional da Maçã (OS X 10.9 Mavericks).

Não há dúvida que o iBooks é um dos aplicativos de leitura mais avançados do mercado, com bons recursos de compartilhamento de anotações, capacidade superior de apresentação do conteúdo do livro, além de boa seleção de fontes e modos de leitura, mas a novidade é menos relevante sem uma versão para Windows – aqui o limitado Adobe Digital Editions ainda é uma das opções mais populares.

Não que uma versão Windows não possa acontecer. À exemplo do iTunes, que roda com loja e tudo naquela plataforma, é provável que a Apple busque expandir sua loja de eBooks, a iBookstore. A tendência multiplataforma é clara: no mesmo evento foi anunciado que os aplicativos do pacote iWork, como Keynote, Numbers e Pages rodarão na nuvem da Apple, via browser, mesmo no Internet Explorer!

Múltiplos dispositivos

Experiência de leitura integrada, mas só no Mac!

No monitor, leitura fragmentada

De forma geral, a experiência de leitura de eBooks no desktop ainda é muito irregular, restrita à cada plataforma e marcada por sistemas proprietários, que não conversam entre si. Mesmo a dobradinha PDF/Adobe Reader oferece melhor experiência de leitura nesse aspecto, e ainda reina absoluta nos computadores de mesa. Uma ação simples como compartilhar uma anotação via desktop é cheia de empecilhos em um ePUB – experimente criar e compartilhar anotações entre vários dispositivos, de diversos fabricantes, a partir de um mesmo livro digital e sinta todo o drama…

Ainda que não seja o ideal, muita gente por aí lê textos extensos diante de um monitor, e a praticidade de um PDF para tarefas simples como compartilhar notas ainda está para ser desafiada. Um aplicativo de leitura de eBooks gratuito, com recursos de sincronização na nuvem, multiplataforma e capaz de interpretar os melhores recursos do ePUB3, será um enorme avanço para a leitura digital.

O iBooks para desktop é um belo passo nessa direção, mas esperanças maiores residem na iniciativa da Readium Foundation, que recentemente lançou o Readium SDK, um motor de renderização de código aberto para livros digitais em ePUB3 e o Readium.js, uma biblioteca em Javascript para leitura deste tipo de eBook diretamente no navegador: ambos facilitarão muito o desenvolvimento de novos programas de leitura para múltiplos dispositivos e, principalmente, independentes de plataformas comerciais.

iBooks desktop: os livros digitais invadem o Mac é um artigo do blog PageLab

Guias da iBookstore: menos burocracia para obter

Márcio Duarte, em 28/07/2012. Categoria: Dicas, Notícias 15

Atualização (24/10/2012): Apesar da abertura da loja “brasileira”, o processo continua o mesmo.

Ícone do iBooksHá muito conteúdo útil pela web voltado a quem produz livros digitais, mas as lacunas ainda são enormes, pois, apesar de se basear nas linguagens da web, eBooks têm seu próprio contexto e particularidades, e com as atualizações frequentes dos sistemas de leitura, fica mais evidente a necessidade de documentação oficial. Felizmente, há algumas iniciativas que estão mudando esse cenário de falta de informação. A tabela de suporte à ePUB3 do Grupo de Estudos da Indústria do Livro (BISG) é um excelente exemplo, pois possibilita planejar que recursos estão disponíveis para os principais eReaders. O problema é que ela oferece apenas uma visão geral sobre os leitores que, embora utilíssima, carece de detalhes mais específicos sobre as plataformas.

Mas há outro avanço: a Apple resolveu recentemente liberar os guias de publicação na iBookstore para as contas de livros gratuitos do iTunes Connect, seu sistema para envio de publicações para a iBookstore, retirando parte da burocracia para obter esses documentos. Até então, para obter os PDFs dos guias (por que não em ePUB?), era necessário ter uma conta para livros pagos, a qual demanda, por exemplo, um número de identificação do contribuinte fiscal emitido pelo governo americano (!!!), conhecido também como Tax-ID. Não é lá impossível de se conseguir um, mas dá um certo trabalho e leva algum tempo. De qualquer forma, mesmo facilitando o processo, ainda é necessário um Apple ID com cartão de crédito internacional registrado para se cadastrar no iTunes Connect.

Os guias (iBookstore Asset Guide 5.0 e iBookstore Marketing & Affiliate Kit 1.1) contém informações bem valiosas – e alguns segredos – para quem desenvolve livros digitais em layout fixo, flúido e multi-touch (iBooks Author) como, por exemplo, dicas de construção de arquivo, snippets de código, recursos exclusivos do iBooks, uso de multimídia, javascript, fontes, e é extremamente recomendado para quem põe a “mão na massa” dos eBooks nesses formatos. Mesmo com sua loja ainda indisponível para vendas de livros no Brasil – sem data certa para isso acontecer (Atualizado em 24/10/2012: a loja brasileira foi aberta, mas com seus problemas –, o iBooks é o programa leitor de publicações digitais com a melhor base de tecnologia do mercado e é uma excelente plataforma de testes do potencial do livro digital.

Para criar uma conta gratuita do iTunes Connect e obter os guias, visite a respectiva página no site da Apple e faça o seu cadastro na conta de livros gratuitos (Free Books Account).

ePUB3: a evolução das publicações digitais

Márcio Duarte, em 15/06/2012. Categoria: Laboratório do eBook, Resenhas 8

A sigla do momento em termos de produção de eBooks é ePUB3, a nova versão do padrão aberto de publicações digitais que promete romper diversas limitações da implementação atual: maiores recursos para layout e estruturação do conteúdo, interatividade, animações, áudio, vídeo, tipografia avançada, suporte a fórmulas matemáticas, narração de texto em voz alta, acessibilidade, entre outros goodies, abraçando uma maior diversidade de publicações, para múltiplas plataformas, em qualquer idioma, não só para livros de texto plano como esse formato tem sido geralmente aplicado.

Apesar da novidade, o fato é que ainda estamos em um estágio muito preliminar da adoção desse novo padrão (ok, estamos em um estágio preliminar em relação a eBooks de forma geral, mas essa é outra história). No momento em que escrevo este artigo, nenhum programa disponível é capaz de gerar um ePUB3 válido automaticamente (o Indesign CS6 oferece uma exportação nativa, que, apesar de experimental, pode gerar um ePUB3 válido para livros mais simples). Mas esse problema deve ser resolvido em breve. Alguns desenvolvedores anunciaram suporte nativo para criação de ePUB3, temos um leitor (Readium) e um validador (ePUBCheck) oficiais, uma utilíssima tabela de suporte aos novos recursos entre os principais dispositivos do mercado, além de dois outros programas de leitura que já suportam o formato (iBooks e AZARDI) e um bonus: a Apple anunciou aos desenvolvedores que começará a aceitá-los na sua iBookstore. Estes são sinais de que o mercado está mesmo adotando o novo padrão.

Do ponto de vista prático, as mudanças no arquivo do livro em si não são tão radicais como parecem, como veremos nesse artigo. A complexidade aparece quando os novos recursos disponibilizados pela especificação são considerados no código própriamente dito. Aí o desenvolvimento de um ePUB3 pode realmente ser visto como produção de software, e não somente produção editorial.

Vamos revisar em linhas gerais algumas das principais dúvidas sobre a nova versão, com respostas às perguntas mais óbvias – lembrando que as respostas consideram algum nível de intimidade com o código:

O que difere um ePUB2 de um ePUB3?

Apesar de oferecer uma série de novos recursos, um ePUB3 se assemelha bastante ao velho conhecido ePUB2: um arquivo compactado com a mesma extensão .epub, e a mesma estrutura básica de pastas, com eventuais imagens, fontes, vídeos e arquivos de texto. É relativamente simples transformar um ePUB2 comum em ePUB3 com poucas mudanças em partes do código – desde que não sejam adicionados novos recursos “pirotécnicos”, claro. Há um bom grau de interoperabilidade entre as versões, que “conversam” relativamente bem. A vantagem principal do ePUB3 é oferecer novas soluções padronizadas para os recursos avançados que citamos no início do artigo, baseados em padrões abertos.

Um epub3 descompactado e seus arquivos

Figura 1: um ePUB3 por dentro. Mais do mesmo, não?

Então um ePUB2 vai ser lido em um leitor ePUB3?

Sim, já que a nova especificação orienta que os novos programas de leitura ofereçam suporte retroativo à versão 2.

E um ePUB3, pode ser aberto nos eReaders atuais, que só suportam ePUB2?

Até pode, mas os eReaders do momento não foram pensados para os recursos do ePUB3. O livro provavelmente apresentará problemas de toda espécie, que vão variar de acordo com o eReader e o conteúdo da publicação. A especificação anterior, (ePUB 2.0.1) não previu compatibilidade com versões futuras, embora exista alguma flexibilidade nesse aspecto. Se deseja mesmo manter uma compatibilidade cruzada entre as versões, é necessário planejá-la de antemão e testá-la intensamente, ainda que isso seja válido para publicações sem muitos recursos de interatividade ou layout. Uma lista de melhores práticas nesse quesito pode ser vista no fórum do IDPF.

O que posso fazer de interessante em um ePUB3?

A lista de possibilidades é imensa, mas isso vai realmente depender do sistema de leitura, já que uma parte das funcionalidades não é obrigatória, como o suporte a Javascript, por exemplo. De forma geral, você pode implementar idéias interessantes como:

  • Um livro ilustrado com animações e narração em áudio que acompanha o texto;
  • Livros com texto em diversos idiomas, com caracteres especiais e até com ordem de leitura invertida – de trás para frente, como em um mangá;
  • Híbridos (app/livro) como, por exemplo, um material promocional para músicos, simulando um disco de vinil animado (single).
  • Mini-jogos, enquetes e simulações junto ao texto, muito úteis em conteúdos educacionais;
  • Publicações com streaming de vídeo e áudio, baixados on demand.
  • Um romance onde partes do conteúdo é alterado de acordo com a localização do dispositivo.

Figura 2. Vídeo com um exemplo das potencialidades do formato

Quanto à compactação/descompactação do arquivo?

Não muda. Podem ser utilizadas as mesmas ferramentas e processos de antes.

O que acontece com o sumário (arquivo NCX)?

No ePUB3, o sumário deve ser criado em um arquivo XHMTL comum, que pode ser estilizado assim como o texto. Este arquivo pode ou não ser inserido no fluxo do texto, via tag <spine> do arquivo .opf. Para compatibildade com o ePUB2, recomenda-se manter também o sumário no formato NCX, já que os futuros eReaders de ePUB3 devem ignorá-lo por padrão, mas ele não é mais obrigatório. A criação do novo documento de navegação pode até ser automatizado por scripts, com base no NCX do ePUB2.

Quanto ao arquivo .opf (package document)?

É mantido no ePUB3 e a estrutura é a mesma do ePUB2, com modificações. Algumas propriedades se tornaram obsoletas, mas podem ser mantidas para efeito de compatibilidade, pois não interferem no funcionamento do ePUB3, sendo um exemplo a seção <guide>. Já outros elementos precisam ser atualizados, como a propriedade “version”, na qual é especificada a versão do ePUB. É ela que efetivamente ativa o suporte às novas funcionalidades.

O que acontece com os demais arquivos obrigatórios (mimetype, conteiner.xml)

Permanecem intocados, nos mesmos locais de sempre.

Os arquivos HTML do conteúdo de um livro na versão 2 precisam mudar para se adaptar ao ePUB3?

De forma geral, o conteúdo dentro das tags <head> e <body> de uma publicação de texto puro, em ePUB2, pode ser mantido, mas a seção inicial dos documentos deve ser obrigatoriamente alterada para se adeaquar ao ePUB3. Como a mudança é padrão para todos eles, pode ser automatizada com a ajuda de expressões regulares, via GREP. É recomendável também usar sempre a extensão .xhtml para todos os arquivos do conteúdo.

Confira um exemplo de código recomendado para o início dos documentos .xhtml, para livros em português brasileiro:

ePUB2

<?xml version="1.0" encoding="utf-8" standalone="no"?>
<!DOCTYPE html PUBLIC “-//W3C//DTD XHTML 1.1//EN"
“http://www.w3.org/TR/xhtml11/DTD/xhtml11.dtd">
<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml">
 

ePUB3

<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"
xmlns:epub="http://www.idpf.org/2007/ops"
xml:lang="pt-BR" lang="pt-BR">

Acessibilidade

Ainda que o mesmo conteúdo de um ePUB2 possa ser interpretado corretamente pelos programas leitores de ePUB3 sem muitas alterações, ao adaptá-lo para a nova versão, é importante repensá-lo à luz da acessibilidade promovida pelas novas tags disponíveis no HTML5, como <section>, ou pela propriedade epub:type, que descrevem semanticamente a função do conteúdo que enclausuram e oferecem métodos alternativos para a interpretação do código pelos sistemas de leitura. Pessoas com deficiência visual agradecem, pois a otimização da estrutura do conteúdo vai facilitar a interpretação audível e a navegação em dispositivos com tecnologia assistiva como o iPad e seu Voice Over. Sem falar que um conteúdo bem estruturado facilita a estilização e a adaptação do livro para outros formatos. Um guia bem interessante de acessibilidade no ePUB pode ser visto aqui. Vale a leitura.

O futuro das publicações digitais? Mesmo?

Tudo isso é muito bonito, mas não seria contraprodutivo investir em uma tecnologia que se baseia em arquivo, diante da promessa do conteúdo na nuvem, acessível em qualquer lugar, apontando para o futuro? Talvez, mas no momento, nenhuma outra solução apresenta o mesmo conjunto de qualidades oferecidas pelo ePUB quando se fala de leitura digital com portabilidade e adaptação automática do conteúdo à múltiplos dispositivos, ou seja, sem necessidade de conexão, considerando diferenciais importantes como padrões abertos, acessibilidade, estruturação e navegação de conteúdo, além dos imprescindíveis metadados. Portabilidade ainda é – e talvez sempre seja – fundamental quando consideramos os altos custos e cobertura das conexões móveis. Mas esta é uma questão que permanece em aberto e só teremos uma boa resposta para essa pergunta nos próximos capítulos desse livro.

Para saber mais