ePUB3: a evolução das publicações digitais

Márcio Duarte, em 15/06/2012. Categoria: Laboratório do eBook, Resenhas 14

A sigla do momento em termos de produção de eBooks é ePUB3, a nova versão do padrão aberto de publicações digitais que promete romper diversas limitações da implementação atual: maiores recursos para layout e estruturação do conteúdo, interatividade, animações, áudio, vídeo, tipografia avançada, suporte a fórmulas matemáticas, narração de texto em voz alta, acessibilidade, entre outros goodies, abraçando uma maior diversidade de publicações, para múltiplas plataformas, em qualquer idioma, não só para livros de texto plano como esse formato tem sido geralmente aplicado.

Apesar da novidade, o fato é que ainda estamos em um estágio muito preliminar da adoção desse novo padrão (ok, estamos em um estágio preliminar em relação a eBooks de forma geral, mas essa é outra história). No momento em que escrevo este artigo, nenhum programa disponível é capaz de gerar um ePUB3 válido automaticamente (o Indesign CS6 oferece uma exportação nativa, que, apesar de experimental, pode gerar um ePUB3 válido para livros mais simples). Mas esse problema deve ser resolvido em breve. Alguns desenvolvedores anunciaram suporte nativo para criação de ePUB3, temos um leitor (Readium) e um validador (ePUBCheck) oficiais, uma utilíssima tabela de suporte aos novos recursos entre os principais dispositivos do mercado, além de dois outros programas de leitura que já suportam o formato (iBooks e AZARDI) e um bonus: a Apple anunciou aos desenvolvedores que começará a aceitá-los na sua iBookstore. Estes são sinais de que o mercado está mesmo adotando o novo padrão.

Do ponto de vista prático, as mudanças no arquivo do livro em si não são tão radicais como parecem, como veremos nesse artigo. A complexidade aparece quando os novos recursos disponibilizados pela especificação são considerados no código própriamente dito. Aí o desenvolvimento de um ePUB3 pode realmente ser visto como produção de software, e não somente produção editorial.

Vamos revisar em linhas gerais algumas das principais dúvidas sobre a nova versão, com respostas às perguntas mais óbvias – lembrando que as respostas consideram algum nível de intimidade com o código:

O que difere um ePUB2 de um ePUB3?

Apesar de oferecer uma série de novos recursos, um ePUB3 se assemelha bastante ao velho conhecido ePUB2: um arquivo compactado com a mesma extensão .epub, e a mesma estrutura básica de pastas, com eventuais imagens, fontes, vídeos e arquivos de texto. É relativamente simples transformar um ePUB2 comum em ePUB3 com poucas mudanças em partes do código – desde que não sejam adicionados novos recursos “pirotécnicos”, claro. Há um bom grau de interoperabilidade entre as versões, que “conversam” relativamente bem. A vantagem principal do ePUB3 é oferecer novas soluções padronizadas para os recursos avançados que citamos no início do artigo, baseados em padrões abertos.

Um epub3 descompactado e seus arquivos

Figura 1: um ePUB3 por dentro. Mais do mesmo, não?

Então um ePUB2 vai ser lido em um leitor ePUB3?

Sim, já que a nova especificação orienta que os novos programas de leitura ofereçam suporte retroativo à versão 2.

E um ePUB3, pode ser aberto nos eReaders atuais, que só suportam ePUB2?

Até pode, mas os eReaders do momento não foram pensados para os recursos do ePUB3. O livro provavelmente apresentará problemas de toda espécie, que vão variar de acordo com o eReader e o conteúdo da publicação. A especificação anterior, (ePUB 2.0.1) não previu compatibilidade com versões futuras, embora exista alguma flexibilidade nesse aspecto. Se deseja mesmo manter uma compatibilidade cruzada entre as versões, é necessário planejá-la de antemão e testá-la intensamente, ainda que isso seja válido para publicações sem muitos recursos de interatividade ou layout. Uma lista de melhores práticas nesse quesito pode ser vista no fórum do IDPF.

O que posso fazer de interessante em um ePUB3?

A lista de possibilidades é imensa, mas isso vai realmente depender do sistema de leitura, já que uma parte das funcionalidades não é obrigatória, como o suporte a Javascript, por exemplo. De forma geral, você pode implementar idéias interessantes como:

  • Um livro ilustrado com animações e narração em áudio que acompanha o texto;
  • Livros com texto em diversos idiomas, com caracteres especiais e até com ordem de leitura invertida – de trás para frente, como em um mangá;
  • Híbridos (app/livro) como, por exemplo, um material promocional para músicos, simulando um disco de vinil animado (single).
  • Mini-jogos, enquetes e simulações junto ao texto, muito úteis em conteúdos educacionais;
  • Publicações com streaming de vídeo e áudio, baixados on demand.
  • Um romance onde partes do conteúdo é alterado de acordo com a localização do dispositivo.

Figura 2. Vídeo com um exemplo das potencialidades do formato

Quanto à compactação/descompactação do arquivo?

Não muda. Podem ser utilizadas as mesmas ferramentas e processos de antes.

O que acontece com o sumário (arquivo NCX)?

No ePUB3, o sumário deve ser criado em um arquivo XHMTL comum, que pode ser estilizado assim como o texto. Este arquivo pode ou não ser inserido no fluxo do texto, via tag <spine> do arquivo .opf. Para compatibildade com o ePUB2, recomenda-se manter também o sumário no formato NCX, já que os futuros eReaders de ePUB3 devem ignorá-lo por padrão, mas ele não é mais obrigatório. A criação do novo documento de navegação pode até ser automatizado por scripts, com base no NCX do ePUB2.

Quanto ao arquivo .opf (package document)?

É mantido no ePUB3 e a estrutura é a mesma do ePUB2, com modificações. Algumas propriedades se tornaram obsoletas, mas podem ser mantidas para efeito de compatibilidade, pois não interferem no funcionamento do ePUB3, sendo um exemplo a seção <guide>. Já outros elementos precisam ser atualizados, como a propriedade “version”, na qual é especificada a versão do ePUB. É ela que efetivamente ativa o suporte às novas funcionalidades.

O que acontece com os demais arquivos obrigatórios (mimetype, conteiner.xml)

Permanecem intocados, nos mesmos locais de sempre.

Os arquivos HTML do conteúdo de um livro na versão 2 precisam mudar para se adaptar ao ePUB3?

De forma geral, o conteúdo dentro das tags <head> e <body> de uma publicação de texto puro, em ePUB2, pode ser mantido, mas a seção inicial dos documentos deve ser obrigatoriamente alterada para se adeaquar ao ePUB3. Como a mudança é padrão para todos eles, pode ser automatizada com a ajuda de expressões regulares, via GREP. É recomendável também usar sempre a extensão .xhtml para todos os arquivos do conteúdo.

Confira um exemplo de código recomendado para o início dos documentos .xhtml, para livros em português brasileiro:

ePUB2

<?xml version="1.0" encoding="utf-8" standalone="no"?>
<!DOCTYPE html PUBLIC “-//W3C//DTD XHTML 1.1//EN"
“http://www.w3.org/TR/xhtml11/DTD/xhtml11.dtd">
<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml">
 

ePUB3

<?xml version="1.0" encoding="utf-8"?>
<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"
xmlns:epub="http://www.idpf.org/2007/ops"
xml:lang="pt-BR" lang="pt-BR">

Acessibilidade

Ainda que o mesmo conteúdo de um ePUB2 possa ser interpretado corretamente pelos programas leitores de ePUB3 sem muitas alterações, ao adaptá-lo para a nova versão, é importante repensá-lo à luz da acessibilidade promovida pelas novas tags disponíveis no HTML5, como <section>, ou pela propriedade epub:type, que descrevem semanticamente a função do conteúdo que enclausuram e oferecem métodos alternativos para a interpretação do código pelos sistemas de leitura. Pessoas com deficiência visual agradecem, pois a otimização da estrutura do conteúdo vai facilitar a interpretação audível e a navegação em dispositivos com tecnologia assistiva como o iPad e seu Voice Over. Sem falar que um conteúdo bem estruturado facilita a estilização e a adaptação do livro para outros formatos. Um guia bem interessante de acessibilidade no ePUB pode ser visto aqui. Vale a leitura.

O futuro das publicações digitais? Mesmo?

Tudo isso é muito bonito, mas não seria contraprodutivo investir em uma tecnologia que se baseia em arquivo, diante da promessa do conteúdo na nuvem, acessível em qualquer lugar, apontando para o futuro? Talvez, mas no momento, nenhuma outra solução apresenta o mesmo conjunto de qualidades oferecidas pelo ePUB quando se fala de leitura digital com portabilidade e adaptação automática do conteúdo à múltiplos dispositivos, ou seja, sem necessidade de conexão, considerando diferenciais importantes como padrões abertos, acessibilidade, estruturação e navegação de conteúdo, além dos imprescindíveis metadados. Portabilidade ainda é – e talvez sempre seja – fundamental quando consideramos os altos custos e cobertura das conexões móveis. Mas esta é uma questão que permanece em aberto e só teremos uma boa resposta para essa pergunta nos próximos capítulos desse livro.

Para saber mais

Produção editorial digital: 6 bons motivos para aprender HTML e CSS

Márcio Duarte, em 18/11/2011. Categoria: Be-a-Bá do eBook 16

ebook=html+css+js

Para aqueles que estão migrando da produção editorial tradicional para os eBooks, ou planejam entrar agora no iniciante mercado de criação de livros digitais, há uma pergunta que não quer calar: preciso mesmo entender de código para criar um eBook? Não seria melhor esperar por uma solução que vá tirar dos designers visuais o peso de lidar com linhas intermináveis de código? Alguém já deve estar pensando em alguma ferramenta para resolver isso… A dúvida é mesmo cruel, já que do ponto de vista da apresentação gráfica do conteúdo, da parte prática mesmo, a divisão entre o mundo web e o editorial é vasto, muito vasto. Além disso, os métodos e ferramentas para desenvolver produtos destinados à impressão profissional já são bem conhecidos pelos profissionais e usam, de forma geral, o sistema WYSIWYG. Incluir mais um conjunto de conhecimentos com características tão diferentes na já atribulada rotina dos profissionais da área gráfica não é tão fácil assim.

Para esclarecer esse dúvida, mas também para oferecer algum “incentivo”, separei cinco argumentos fundamentais para convencer o pessoal da produção editorial print-only a entrar de vez no fantástico – às vezes nem tão fantástico assim, é verdade – mundo das linguagens web. Vamos a eles:

1. HTML e CSS são ingredientes vitais em várias iniciativas do digital publishing

Vivemos um estágio onde há diferentes tipos de livros e revistas digitais, com formas de produção e plataformas de leitura específicas, algumas abertas, outras proprietárias, e a todo momento vemos surgir novos tipos. Todos podem ser igualmente chamados de publicações digitais. Em qual deles vale a pena investir profissionalmente? Se pudéssemos apostar em um terreno seguro, acima de qualquer discussão sobre padrões, para quem quer navegar nessa onda dos eBooks, esse seria o das linguagens web. Elas são os blocos de construção básicos dos principais tipos de livros digitais, ePUB e Kindle, e estão por trás de várias outras iniciativas que transformam conteúdo web em livros eletrônicos, como o Pressbooks. Mesmo livros e revistas no formato de aplicativos podem ser construídos com a ajuda delas, e como a web não vai à lugar nenhum, é bem provável que essas tecnologias padrão sejam relevantes por muito tempo – a decisão da Adobe em focar em HTML5 para desenvolvimento mobile, deixando de lado o Flash Player para estas plataformas, é um forte sinal nesse sentido. Entender e dominar o idioma da web é meio caminho para se manter “dentro do jogo”. Fugir dele é inútil.

2. Programas totalmente WYSIWYG para criação de conteúdo web tem sérios problemas

Eles existem, e tem suas aplicações, mas são pouco flexíveis e inserem ainda mais complexidade no processo de desenvolvimento. O que se pode fazer com eles é limitado, por que a web – e o mundo do eBook, que bebe da mesma fonte – é um meio complexo, cheio de possibilidades, e deve ficar mais complexo ainda com o HTML5. Ao contrário do setor gráfico, onde ocorre uma forte padronização das tecnologias e delimitação do ambiente, métodos e programas de produção – basicamente construídos sobre o PostScript/PDF –, no mundo web não há um ambiente restrito que delimite tão fortemente o contexto de apresentação gráfica da informação. Basta imaginar os diversos tamanhos de tela disponíveis, métodos de interagir com a informação (teclado, mouse, touch), modos de cor, versões de programas, velocidades de conexão, plataformas, níveis de suporte aos padrões… Enfim, não há uma única maneira padronizada e universalmente aceita de preparar um conteúdo automaticamente diante desse cenário, pois essa é a natureza do meio: ilimitado, aberto, colaborativo. É por isso que é tão difícil criar um programa totalmente visual para conteúdo baseado em linguagens web. Até agora, não há nenhum capaz de lidar com toda a gama de possibilidades e problemas inerentes à produção, seja para a web ou para eBooks. Na prática, para resolver os problemas criados por eles é preciso ainda mais conhecimento das linguagens.

3. Conversões automáticas entre formatos não são confiáveis para uso profissional

Alguém pode argumentar que, para certos tipos de livros – de texto puro, por exemplo – é possível produzir um eBook “satisfatório” com uma simples conversão entre formatos, digamos, de PDF para ePUB, sem lidar com código. Para conversões amadoras, sem muitas expectativas ou controle sobre o resultado final, talvez seja verdade, mas essa não é uma opção para quem quer trabalhar profissionalmente com eBooks e precisa entregar um produto livre de erros. Conversões automáticas, por mais eficientes, não são capazes de antever como o arquivo será interpretado em cada eReader, e geralmente falham nesse quesito fundamental: regularidade. A única maneira garanti-la é conhecer a fundo como se comporta o código gerado e como será interpretado nos sistemas de leitura, para então identificar e solucionar os problemas… e para publicações de layout mais complexo – que devem frutificar com a chegada do EPUB3 – este tipo de conversão automática tem menos utilidade ainda.

4. Os “idiomas da web” são linguagens relativamente simples de se aprender

O HTML não é uma linguagem de programação, mas uma linguagem de marcação. A curva de aprendizado desta categoria de linguagem de codificação é relativamente pequena, pois suas regras básicas não são complexas. Em pouco tempo é possível aprender seu contexto, regras e potencialidades. Acontece o mesmo com as folhas de estilo CSS. Há muito mais desafio em aprender uma linguagem de programação “pra valer” como o PHP ou o Python.

5. Os recursos de aprendizado disponíveis são inúmeros e acessíveis

No início do desenvolvimento web, há 20 anos, aprender a lidar com HTML era para poucos: simplesmente não havia material disponível para aprender a linguagem. Não havia cursos, tutoriais, publicações, Youtube, vídeocasts e toda a sorte de materiais instrucionais disponíveis hoje. Com dedicação e persistência é possível até mesmo aprender a lidar com essas linguagens de graça – embora um bom curso presencial seja uma excelente forma também, mais eficiente para muitas pessoas.

6. Novas competências = novas oportunidades

Uma pesquisa recente mostra que a indústria editorial está tendo dificuldades em agregar competências digitais no seu fluxo de trabalho (isso nos EUA, mas acredito que o mesmo se aplica aqui). A integração do mercado editorial com tecnologias mobile está em plena expansão e profissionais capazes de lidar com os dois mundos (impresso e digital) são/serão valorizados no mercado. O nível de demanda para produção de conteúdo digital tem crescido proporcionalmente com a popularização dos dispositivos móveis, e há muitas oportunidades surgindo, em várias frentes, não só no terreno do digital publishing. Se consideramos também as projeções de crescimento do mercado de livros digitais, e da web de forma geral, não há dúvida que essa lacuna ficará mais evidente.

Um livro de mil faces » Parte 2

Márcio Duarte, em 10/08/2011. Categoria: Be-a-Bá do eBook 5

formato ePub: o padrão flúido de eBooks

1. Introdução 2. ePub 3. Apps 4. PDF 5. Kindle

Seguindo a série de artigos sobre os formatos de eBooks mais relevantes para mercado editorial, vamos falar sobre o ePub, certamente o mais importante para o setor editorial, no Brasil e no exterior.

ePub: o padrão flúido de eBooks
Nome completo
Eletronic Publication
Extensão do arquivo
.epub
Relevância *****

Por que é importante?

Se você é designer, diagramador ou autor com intenções de editorar seu próprio livro, comece já a entender o formato. Ele vem sendo largamente adotado no mercado editorial mundial e fortemente no Brasil como padrão de eLivros. Algumas das principais lojas e livrarias virtuais (Cultura, Submarino, Saraiva, PontoFrio) já disponibilizam livros eletrônicos em ePub. Existem até rumores de que a Amazon, históricamente avessa ao formato, esteja planejando adotá-lo no seu eReader Kindle, dada a sua crescente popularidade – mas nada disso foi comprovado ou tem indícios concretos ainda.

Um exemplo da crescente adoção do formato: a O’Reilly Media, uma das maiores editoras de livros na área de tecnologia, divulgou um gráfico mostrando que entre os vários formatos de livros eletrônicos vendidos em sua loja online, o ePub é o que teve, proporcionalmente, o maior crescimento no número de downloads (o PDF ainda é o mais baixado em números absolutos).

Gráfico mostrando a evolução de downloads de eBooks no site da O'Reilly

Figura 1: a área azul escuro do gráfico mostra o crescimento do número de eBooks no formato ePub baixados na loja virtual da O’Reilly.

Uma das principais barreiras ao ePub é a irregularidade na interpretação do arquivo pelos aparelhos e programas, o que dificulta a criação de livros com recursos mais avançados ou com um padrão visual mais consistente, fundamental para cartilhas e livros com conteúdo educacional. Como se sabe, este tipo de publicação recebe altos investimentos governamentais e pode ser o que falta para impulsionar o crescimento dos livro digital. Isso deve acontecer à medida que os eReaders se tornem mais populares e o padrão EPUB3, o divisor de águas para o formato, a ser lançado em breve, seja finalmente adotado.

Moral da história: o ePub veio para ficar, invista nos conhecimentos necessários para produzí-lo.

Características:

Atualmente na versão 2.1, é baseado em padrões abertos (ou seja, não utiliza tecnologias proprietárias), principalmente nas linguagens padrão da internet: HTML, CSS e Javascript – esta útlima, estará presente oficialmente somente na próxima versão, o ePub3, mas é suportada no programa leitor de ePub da Apple, o iBooks.

Vídeo 1: Demonstração básica da leitura de um ePub

Basicamente, um ePub é um arquivo zip com arquivos de texto puro sob diversas extensões, como .xhtml, .opf, .xml, mas pode também incluir diversos outros tipos de arquivo, como imagens, fontes tipográficas, áudio e vídeo. Alguns o definem como um site compactado, mas isso não é bem verdade, pois um ePub possui caracterísitcas bem distintas quanto às funcionalidades e contexto de utlização, como, por exemplo, a definição de uma ordem de leitura linear e o layout extremamente limitado. Quanto à produção, no entanto, há várias semelhanças com um site, e aqueles profissionais já acostumados a criar conteúdo para a web se sentirão mais à vontade nesse território.

Estrutura de arquivos de um ePub

Figura 2: Janela mostrando a estrutura de arquivos de um ePub descompactado.

Figura 3: Diferenças na visualização do mesmo ePub entre diferentes aparelhos.

O ePub é flúido, ou seja, o conteúdo se adapta a cada aparelho (não há um tamanho de página fixo como em um PDF, por exemplo), o que transfere o controle de alguns aspectos do design do livro para o software ou diretamente para as mãos do leitor, como o tamanho e o tipo de letra. Isso torna o ePub um suporte onde o conteúdo tem absoluta primazia sobre a apresentação gráfica, o que não significa que o trabalho do designer tenha acabado aí.

Por exemplo: se em um livro impresso, cada aspecto do livro é decidido pelo designer, desde a família tipográfica até o tamanho final da publicação, sempre na intenção de deixar o conteúdo transparecer, no ePub é preciso encarar essa ausência de controle como um passo adiante nesse objetivo, como uma vantagem para o leitor, inclusive aqueles com necessidades especiais de leitura. É a flexibilidade que o livro impresso não possui. A intenção continua sendo a de fazer o conteúdo “brilhar”, mas isso é feito de outra maneira, menos “impositiva” visualmente falando. Acredito que a abordagem continua essencialmente a mesma, já que mesmo no design tradicional de livros, o conteúdo é rei: o designer deve abrir mão de sua expressão pessoal em favor da legibilidade e do entendimento do texto. No terreno digital, essa concepção é maximizada exatamente por essa característica flúida do modelo.

Alguns profissionais, no entanto, vão achá-lo um tipo de eLivro que oferece poucos recursos para criar um produto graficamente rico, embora isso deva a melhorar com o EPUB3. A verdade é que, apesar de suas vantagens para o leitor, se a idéia é a privilegiar a expressão gráfica no livro – o layout –, há outros suportes mais indicados, como o próprio PDF e os livros no formato de aplicativo (apps).

Variantes

Fixed layout ePub (ePub de layout fixo)

Consiste em uma extensão do ePub, criada pela Apple no fim de 2010, para execução exclusiva no iBooks (programa leitor de eBooks da Apple para iPad, iPhone e iPod Touch), onde cada página, apesar de construída em XHTML, é fixa, como em um PDF, permitindo uma maior liberdade gráfica no layout mas eliminando uma das principais características do ePub tradicional: a fluidez do conteúdo. Tem sido muito pouco utilizado e o fato de parecer com um PDF, mas extremamente limitado quanto à distribuição, talvez impeça sua popularização. Por outro lado, há a necessidade real de um formato fixo de eBooks, capaz de criar publicações onde o design é tão (ou mais) importante que o texto, como livros infantis ou com muito conteúdo ilustrativo. Se algum sub-formato, como este criado pela Apple, vai assumir esta função, ainda não está definido. Existem outros formatos de layout fixo semelhantes, como o Nook Kids e o XPS (utilizado na plataforma Blio), mas estes não tem relação direta com o ePub.

Vídeo 2: demonstração de ePub de layout fixo.

Desafios que você irá encontrar na produção e no projeto

  • Em diversas situações, para produzir um ePub é preciso ter intimidade com código. Ponto. Não há solução totalmente visual (WYSIWYG) ou automática para produzir um livro deste tipo com qualidade profissional, no atual estágio de desenvolvimento das ferramentas de produção, a exemplo do que ocorre também no desenvolvimento de sites. É possível sim usar um software como o Calibre para fazer conversão de um formato de texto puro para ePub, mas essa não é a melhor abordagem para profissionais da área que precisam ter controle sobre seu produto. Conversões do tipo tiram o controle das mãos do profissional e podem inserir uma série de problemas no código que precisam ser resolvidos depois. A boa notícia é que entre todas as linguagens, as utilizadas no ePub (HTML e CSS, chamadas de linguagens de marcação) estão entre as menos complexas. Acostume-se a elas;
  • Ainda não existe um método consolidado e simplificado para produzir um ePub. É necessário dominar um canivete suíço de soluções, sempre em desenvolvimento. Ao contrário do livro impresso, no qual o trabalho é, de forma geral, conduzido com apenas dois ou três programas, no ePub utiliza-se diversas ferramentas, utilitários e operações diferentes para alcançar o resultado final, parte delas sem nenhum tipo de integração entre si;
  • Embora as linguagens web ofereçam nativamente um excelente controle para a formatação de conteúdo, até mesmo com algumas vantagens sobre os programas tradicionais de editoração eletrônica, a interpretação do arquivo nos aparelhos é irregular. Vários recursos interessantes são simplesmente ignorados pelos dispositivos e programas de leitura, o que acaba “nivelando para baixo” o resultado final do ePub. Além disso, é uma área que evolui lentamente, pois a adoção de tecnologias está atrelada à aquisição de novos aparelhos por parte dos consumidores;
  • É necessário adquirir e manter atualizados alguns aparelhos que representam os principais sistemas onde o ePub será executado, como tablets, celulares, eReaders (veja a recomendação de aparelhos logo abaixo). Fora os programas para execução. Isso representa custos extras e maior tempo dedicado à manutenção de aparelhos, algo praticamente inexistente no fluxo de trabalho do livro impresso.
  • Um livro bem produzido neste suporte demanda uma maior atenção, já que além do conteúdo em si, o código utilizado para representar esse conteúdo também é importante, pois um código mal construído, prolixo ou ultrapassado vai interferir na boa performance e na compatibilidade – presente e futura – do livro nos dispositivos leitores;
  • O valor de mercado para produção de ePub iniciou em um patamar baixo. Aliás, abaixo do que os profissionais estão acostumados para o livro impresso. Isso ocorre não só pela imaturidade dos padrões e do mercado de eBooks, mas também pela facilidade em se converter arquivos de um formato para outro, reduzindo o valor de produção, mas reduzindo também a noção de valor ao criar edições de baixa qualidade, sem cuidado ou planejamento. Não é muito difícil encontrar um ePub, mesmo os adquiridos nas grandes livrarias, com erros de revisão, de código e sem noção alguma de projeto e de edição. Os livros digitais merecem o mesmo tratamento dos livros impressos e essa é uma excelente oportunidade para os profissionais da área deixarem isso bem claro, mostrando seu diferencial e mudando esse cenário.

Mudanças no método de trabalho

Se você trabalha com produção de livros, não será necessário abandonar todos os seus conhecimentos de Indesign ou Quark, pelo menos para parte do trabalho. Os dois são capazes de gerar ePub a partir dos seus arquivos, ainda que o Indesign ofereça vantagens (a versão CS5.5 é a melhor nesse sentido). Os arquivos gerados por estes programas, no entanto, introduzem problemas no código que podem significar, dependendo do tipo de publicação, mais trabalho do que produzí-los fora deles, principalmente para quem não domina as linguagens web. Publicações com muitos elementos extra textuais (imagens, tabelas, quadros e gráficos) são as mais problemáticas. O motivo é que são programas construídos sob o paradigma da página impressa e ainda não estão totalmente adaptados ao conceito de separação entre a informação e sua apresentação visual, vital no mundo do ePub. Para profissionais com conhecimento de XHTML e CSS, pode ser mais vantajoso evitá-los para produção de ePub e criar o arquivo a partir de templates pré-estabelecidos com um editor de código, como o Coda, ou mesmo utilizar o Word ou o LibreOffice (com a ajuda de plugins) como ponto de partida.

Ter o controle do seu código é fundamental para solucionar e resolver problemas, pois cada eReader tem suas especificidades na forma de interpretar o arquivo. Ainda assim, mesmo que algumas fases do trabalho possam ser executadas no Indesign ou Quark, para se obter um ePub de alta qualidade ao fim do processo, não há como fugir da – temida por muitos – edição de código.

Novos conhecimentos para os profissionais

Hardware adicional de trabalho

Este é um tópico sem resposta definitiva. Devido a enorme quantidade de eReaders disponíveis e do suporte extremamente variado ao formato, é impossível apontar um ou dois aparelhos ou programas de trabalho e garantir que seu livro sairá perfeito em todas as soluções disponíveis de leitura de ePub. O formato ainda não chegou nesse grau de maturidade e testar o ePub em todas os programas e aparelhos disponíveis é inviável para a maioria das pessoas. Mas já podemos apontar alguns bons candidatos para essa tarefa. A plataforma Webkit, criada pela Apple e disponível em programas como o iBooks para sistema iOS, é uma das que provavelmente estará no cenário por muito tempo. Qualquer aparelho que utilize esta tecnologia, é um bom candidato. Além disso, muitos aparelhos utilizam a plataforma de eBooks da Adobe como base do seus sistemas, como o Cool-er, o Nook, os aparelhos da Sony e o Positivo Alfa. O mesmo com alguns programas, como o BlueFire, o Aldiko e o Stanza. Assim, é possível reduzir bastante a quantidade de dispositivos para teste.

Também é fundamental ter aparelhos de teste com variações de tamanho de tela, de forma a simular a experiência do leitor em contextos distintos. Um smartphone e um eReader (ou tablet) podem fazer esse papel. Assim, lembrando que ainda não há uma lista de dispositivos perfeita e que quanto mais contextos de teste possíveis, melhor, podemos considerar a seguir um exemplo de pacote mínimo de hardware:

  • Algum dos aparelhos da Apple com o sistema iOS (iPad, iPhone, iPod Touch) para rodar o iBooks e diversos outros aplicativos importantes: BlueFire, Stanza, Nook Reader;
  • eReader que utiliza o sistema de eBooks da Adobe. Exemplos: Cool-er, Positivo Alfa, Sony Reader, Nook, populares aqui no Brasil.
  • eReader/tablet/Smartphone com Android para rodar o Aldiko, um dos principais programas de leitura desta plataforma. Alguns exemplos: Sansung Galaxy Pad, Motorola Xoom (pronuncia-se Zoom) ou mesmo um simples smartphone ZTE X850 (uma das opções mais baratas de Android no momento em que escrevo este artigo).

Observação: Não considerei como lista de hardware os computadores, sejam com Windows, Linux ou Mac, que já fazem parte das ferramentas de trabalho. Para estes, o mínimo de programas instalados são: um browser com o motor do Webkit (Chrome, Safari ou o próprio browser Webkit) e o Adobe Digital Editions.

Programas e utilitários

Há um grande número de programas para criação de ePub, capazes de gerar resultados com os mais variados níveis de qualidade. Na lista, considerei aqueles que lidam diretamente com o formato, mas qualquer programa que exporte o conteúdo em HTML tem, a princípio, utilidade no workflow de produção. Não considerei também os serviços online ou programas que apenas convertem o conteúdo em ePub, como o Book Glutton ou o Calibre.

De forma geral, as soluções baseadas em conversão automática entre formatos são as menos indicadas para trabalho profissional, principalmente nos livros com muita variedade de estilos, figuras, tabelas e outros elementos não-textuais, mas a idéia da lista não é citar cada um nem apontar o fluxo de trabalho ideal. A intenção é oferecer uma visão geral de programas disponíveis para iniciar a produção. Uma avaliação mais aprofundada das ferramentas de edição, prós, contras e melhores workflows fica para um próximo artigo.

Tabela 1: lista de programas e utilitários recomendados

Sistema operacional
Windows Mac Linux
Editores com geração automática de arquivos ePub

Programas que não foram criados exclusivamente para ePub mas que exportam o formato

Indesign (CS3 e superior)1
Libre Office * + Writer2ePub (plugin *)2
QuarkXPress 9
Microsoft Word + Aspose.Words (plugin*)
Oxygen XML Editor
Scrivener
Atlantis Word Processor
Pages
Infohesive *
Editores de ePub

Programas criados especialmente para produção de ePub

Sigil *
eCub *
Jutoh
Legend Maker
ePuper *
Bookbin *
Utilitários de compressão

Necessários para descompactação e recompactação.

ePubPack *
ePubZip *
EPUBscripts *
Validação de ePub

Fundamental para verificação do arquivo

FlightCrew
ePubChecker
ePub Check

1 Cada versão do Indesign acima da CS3 apresenta melhorias adicionais em relação à anterior. A mais recente, CS5.5, é a melhor e mais indicada para produção de ePub.
2. É necessário instalar o plugin Writer2ePub para gerar o ePub
* Programa gratuito