iBooks Author: uma bela ilha no meio do oceano

Márcio Duarte, em 21/01/2012. Categoria: Resenhas 1

Janela do iBooks Author

Do ponto de vista do design e da produção de livros digitais, o lançamento do iBooks Author, programa gratuito para Mac que permite a criação de livros eletrônicos de forma totalmente visual, representa um avanço, não há dúvida. É mesmo uma boa ferramenta para quem ainda se sente intimidado com a criação de eBooks com layout e interatividade avançados. Até o lançamento do programa, para criar determinados tipos de livro com recursos mais “vistosos” – como os didáticos – era necessário produzir um aplicativo (como os produzidos pelo Adobe DPS) ou se contentar com o PDF.

Quanto ao ePUB, o suporte nos eReaders é tão ruim e irregular que mal pode ser considerado uma opção real para publicações com layout complexo, sem falar que para produzir algo do tipo é necessário um elevado conhecimento das particularidades de tecnologias que compõe o ePub e dos sistemas de leitura – o que faz muitas pessoas torcerem o nariz. Criar visualmente é o modus operandi básico de quem tradicionalmente trabalha com edição de livros e a necessidade de lidar diretamente com código representou um baque forte nas espectativas dessas pessoas. A verdade é que quem esperava uma oportunidade de criar conteúdo editorial para a plataforma iOS, de forma visual, a um custo de produção menor – sem as taxas da solução da Adobe –, com interatividade e recursos avançados, encontra uma luz no fim do túnel com o iBooks Author.

Tour do iBooks Author

Quem não quer um livro livre?

Ok, o programa é um avanço em termos de produção, mas ele não elimina a necessidade de se trabalhar também com o formato ePub, por um motivo muito simples: liberdade. Seu iBook interativo, cheio de animações, enquetes e vídeos, só estará disponível para uma parcela muito pequena dos leitores – aquela com recursos para comprar um iPad ou iPhone, caríssimos por essas bandas, sem falar que para colocar à venda seu livro didático, é necessário passar por um processo bizantino para conseguir uma conta específica para venda na iBookstore e fazer o envio do seu eBook partir de um Mac com o OS X Lion instalado – existe uma forma de fazê-lo a partir do sistema anterior, o Snow Leopard, mas ela não é oficial. Para piorar, embora o iBook use descaradamente a mesma estrutura e convenções do ePub, é inviável utilizar o código gerado como ponto de partida para desenvolver um ePub, tanto pelo uso de extensões proprietárias, que permeiam boa parte do código, quanto pelas restrições legais impostas pela Apple, que fez um bom esforço para “embraralhar” o código do formato iBook. O formato KF8, do Kindle, sofre de um mal parecido. Nesse sentido, o ePUB ainda é – e continuará sendo – a melhor aposta para o mercado editorial digital de longo prazo, mesmo com todos os desafios que representa.

Exemplo de código de um arquivo iBook

Código extraído de um iBook: Parece ePub… mas não é. :(

Avançado e limitado ao mesmo tempo

O funcionamento do iBooks Author, apesar de ser uma versão 1.0, é excelente, como costuma ocorrer com todos os programas da Apple: intuitivo, simples e poderoso ao mesmo tempo. É capaz de criar livros que “enchem os olhos”, ainda que a forma utilizada para criá-los fuja completamente do estilo dos programas de editoração eletrônica, como Indesign e QuarkXpress. É muito semelhante ao Keynote, do pacote iWork, e imagino que aproveitaram boa parte do seu código-fonte durante o desenvolvimento. Mas, assim como o Keynote, seu formato proprietário acaba por limitar sua utilidade, principalmente em um universo tão amplo de dispositivos e plataformas de leitura. Sem integração com o ePub, por exemplo, para publicar seu livro em outra loja online é necessário desenvolver duas versões praticamente independentes de um mesmo conteúdo. Seria fantástico se houvesse uma integração com o ePub, mas não esperaria isso da Apple. Há uma esperança, no entanto. Há gente dentro da Canadense Kobo e no time do eReader BlueFire interessada em desenvolver algo do tipo.

Keynote e iBooks Author: irmãos gêmeos

Resumo da ópera: uma publicação no formato iBook é como uma ilha no meio do Pacífico: bela e isolada. Não há integração alguma dela com os fluxos de trabalho atuais do digital publishing, além de só poder ser colocada à venda em uma loja específica (iBookStore), para leitura em apenas um aplicativo (iBooks) de uma única plataforma (iOS). Ainda há dois agravantes que devem limitar o uso da ferramenta no Brasil: as peculiares exigências da Apple para criar uma conta específica do iTunes Connect, necessárias para colocar os livros à venda, e a obrigatoriedade de utilizar a plataforma Mac para produção e envio dos arquivos.

Quem está na chuva é para se molhar

É óbvio que a chuva de formatos que estamos observando, resultado da guerra pela soberania do digital publishing, só complica a vida de leitores, autores, editoras e demais profissionais envolvidos no mercado editorial, mas o iBook é só mais um destes formatos, em um mercado ainda na sua infância. O iBooks Author representa sim um avanço em relação ao desenvolvimento de ferramentas de criação mais acessíveis e capazes. Claro que ele traz muitas armadilhas mas, após muito tempo sem nenhuma inovação significativa nessas ferramentas, a iniciativa da Apple está contribuindo para sacudir os ânimos dos desenvolvedores, o que deve render frutos em termos de novos aplicativos. Outro efeito colateral positivo é que, mesmo entre os formatos de eBook mais díspares, como o iBook, há um interesse forte nos uso de padrões abertos da web (HTML, CSS, SVG) como tecnologias de base, até por que ninguém quer reinventar a roda. Uma análise do código de um arquivo iBook mostra exatamente isso. Não costumava ser assim há alguns anos. Já é um avanço.

eBook produzido pelo PageLab ganha selo de excelência do DBW!

Márcio Duarte, em 06/01/2012. Categoria: Notícias 12

Atualizado em 16/02/2012

Selo de Qualidade do DBWPara começar o ano, uma excelente notícia: um dos eBooks projetados aqui no PageLab em 2011 para o WWF-Brasil e para a Fundação Florestal do Estado de São Paulo, com o apoio do HSBC, o Guia de Aves da Mata Atlântica Paulista (Guide to the birds of São Paulo’s Atlantic Forest), ganhou o selo de qualidade QED (Quality, Excelence and Design) do Digital Book World, o primeiro do tipo a considerar livros digitais no setor editorial digital, em todo o mundo, em termos de inovação, em várias categorias: apps e ePubs.

Ao todo, 85 ebooks foram selecionados para receber este selo, em uma iniciativa muito importante no momento em que os eBooks começam a ganhar importância e popularidade, inclusive aqui no Brasil. Uma das principais reclamações dos leitores é a baixa qualidade dos eBooks, mesmo produzidos por grandes editoras, seja no Brasil, seja no exterior. Sem respeito ao conteúdo e à tradição centenária do livro, não há avanço sustentável para o livro eletrônico enquanto produto ou meio de expressão e informação.

“Consideramos o QED o ‘Selo de Aprovação de Boas práticas™” para ebooks – uma marca de qualidade que os editores, autores e criadores de conteúdo podem ter orgulho, assegurando que seus leitores podem adquirir a publicação com confiança. As vendas de eBooks estão crescendo dramaticamente e os leitores precisam saber que o livro que estão comprando será executado corretamente – independentemente do dispositivo de leitura – seja tablet, eReader, smartphone, ou PC – antes de comprá-lo. É muito gratificante ver que tantos editores, de toda uma gama de gêneros, estão produzindo ebooks da mais alta qualidade atualmente”.
David Blansfield, Presidente da empresa F + W Media, gestora do DBW

O anúncio completo e a lista de todos os eBooks selecionados pode ser vista no site do Digital Book World. Além de receber o selo QED, o livro ficou entre os três finalistas do Publishing Innovation Awards deste ano, na categoria Referência/Acadêmico.

O guia, produzido no formato ePub, ainda não foi disponibilizado para download, mas aviso assim que isso ocorrer aqui no blog. Atualização de 31/01/2012: O livro já está disponível para download na iBookStore, gratuitamente (é preciso uma conta americana do iTunes, a versão brasileira não servirá. Veja como criar uma neste link). Mais informações sobre a publicação – inclusive o PDF produzido para a versão impressa – podem ser encontradas no site do WWF-Brasil ou no site da Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Abaixo, algumas imagens do eBook apresentado no aplicativo iBooks, do iPad:

Padronização do design dos eBooks: hyperlinks

Márcio Duarte, em 16/09/2011. Categoria: ePub Bugs, Laboratório do eBook 0

O suporte a folhas de estilo CSS nos leitores de ePub é muito irregular, para não dizer sofrível. Mesmo atributos simples como uma simples alteração de cor nos hyperlinks não é garantida em todos os leitores. O iBooks, leitor de eBooks da Apple que usa o motor de renderização Webkit, é um exemplo disso. Recusa-se a aceitar a alteração na cor dos links, mesmo se o CSS for aplicado inline, junto ao código, o que deveria ter a preferência sobre outros estilos. A cor padrão aplicada pelo programa é um púrpura (fig. 1) que possui pouco contraste com a cor preta padrão do texto. O resultado é que muitos links são difíceis de encontrar à primeira vista. Mudar a sua cor da forma padrão não funciona no iBooks. Por exemplo: ao usar o CSS a { color: red; }, nada acontece. A mesma cor púrpura de sempre é utilizada. Se aplicarmos estilos inline (diretamente no código HTML) a cor é alterada, mas este tipo de aplicação do CSS é difícil de introduzir e atualizar. Isso acontece no iBooks, no Adobe Digital Editions (e em todos os eReaders que usam a mesma base, o Adobe RMSDK) estilos inline não são obedecidos.

Onde estão os links nessa página?

Figura 1: Um doce para quem encontrar os links neste texto :)

Investigando o problema

Mas será que não é mesmo possível alterar essa cor mantendo um padrão entre os diferentes eReaders? E outros atributos, como underline e cor de fundo? Como outros programas/dispositivos leitores se comportam nesse quesito? Para buscar soluções, criei um ebook de teste (Baixe: [download id="3"]) com diversas formas de se estilizar um link via CSS para testá-lo em diversos eReaders, e verificar como se comportam de acordo com o tipo de código: estilos inline, em folhas de estilo externas ou no cabeçalho do HTML. Como o iBooks utiliza o Webkit para renderizar as páginas, testei também várias extensões CSS desta engine para verificar como o eReader da Apple se comporta. As extensões CSS (ou CSS vendor extensions) do Webkit, assim como as de outros motores de layout como o Gecko (Firefox) e Trident (Internet Explorer), são propriedades de estilos CSS que afetam somente os programas que os utilizam como base, e não funcionam nos programas que não as usam. Assim podemos aplicá-los para (tentar) resolver problemas como estes, sem prejuizo algum para a interpretação do código do ePub.

Fiz algumas descobertas interessantes:

  • Como havia dito, uma parte dos eReaders, entre eles os que usam a mesma base do Adobe Digital Editions, simplesmente não reconhecem estilos inline, aplicados junto do código. O CSS especificado em uma classe ou diretamente à tag <a>, por meio de um CSS externo, foi aplicado corretamente. O iBooks, por sua vez, reconheceu os estilos inline, mas não os externos (por classe ou aplicados à tag <a> :P ;
  • No iBooks, se o texto do link estiver envolto por uma tag span, é possível alterar a cor do texto do link e a cor de fundo, mas o underline é mantido em outros leitores, pois é uma propriedade do link em si;
  • O CoolReader (programa relativamente popular e bastante utilizado na plataforma Android) não reconheceu os estilos aplicados por meio de “id” ou diretamente à tag <a> no CSS externo, apenas aqueles aplicados por meio de “class”;
  • Ao enclausuar o texto do link em uma tag <span>, o Nook ignorou a cor de fundo do link;
  • A extensão -webkit-text-fill-color é capaz de alterar a cor do texto do link no iBooks sem prejudicar a funcionalidade. A boa notícia é que outros eReaders que utilizam o Webkit também se beneficiam da mudança. Nos meus testes, os programas de leitura Stanza (iPad), iBis Reader (Online) e Moon+ Reader (Android) responderam à propriedade CSS -webkit-text-fill-color, ou seja, aplicaram a cor corretamente;
  • Inserir no ePub o arquivo com.apple.ibooks.display-options.xml, um arquivo geralmente utilizado em ePubs de layout fixo do iBooks, faz com que o programa aceite qualquer cor de link (permite também que fontes embutidas sejam utilizadas), mesmo sem a extensão -webkit-text-fill-color. Mas como é usado apenas no iBooks, não é uma opção muito universal;
  • Parece ser uma prática relativamente comum entre vários eReaders (Stanza, Laputa, FBReader e mesmo o Aldiko para Android) adotar uma espécie de pré-processamento do código, ou seja, ao ser aberto, o conteúdo do ePub é extraído e é renderizado pelo programa com a ajuda do seu próprio CSS, ignorando o CSS embutido no arquivo. Alguns leitores oferecem a possibilidade de carregar esse CSS especificado pelo designer, outros não (Laputa, FBReader, Stanza Desktop). Isso dificulta muito a padronização do projeto visual do ePub, pois cada eReader tem sua opinião sobre a melhor forma de apresentar o ePub, e ela nem sempre é a melhor possível. Seria importante que os programas permitissem que os estilos propostos pelo designer fossem carregados primeiro, assim como acontecem nos navegadores no caso de websites. Alguém já navegou em algum site onde o design do site foi todo redefinido pelo navegador ao ser aberto, sem sua solicitação? Creio que não.

Galeria 1: Imagens das telas de alguns eReaders. Note a discrepância na interpretação dos links.

Conclusões

A melhor abordagem ao estilizar links no ePub é aplicar uma classe qualquer à tag em questão e especificar os estilos em um arquivo CSS externo para afetar os eReaders baseados no RMSDK da Adobe, incluindo a propriedade -webkit-text-fill-color para os programas que usam Webkit, principalmente o iBooks. Não enclausure o texto do link em nenhuma tag, aplique o estilo à classe, se preciso. Assim, para especificar cor nos links dos seus ePubs inclua sempre no seu código:

/* HTML */
<a class=“link” href=“http://www.seulink.com”>Texto do link</a>
/* CSS */
a.link {
color: #suacor;
-webkit-text-fill-color: #suacor;
}

Esta é solução mais universal para estilização de links. Ainda assim, alguns eReaders como o FBReader e o Laputa Reader para Android sobrepõem completamente o CSS criado pelo designer do ePub. Outros, como o Moon+ Reader e o Aldiko, também para Android, só aceitam o CSS se o leitor especificar deliberadamente essa opção nas configurações do programa. Neste caso, não há muito o que fazer, mas como o código não interfere nos demais estilos e na performance do arquivo, é uma opção viável.

Lembrando que essa abordagem de usar extensões Webkit pode ser aplicada para buscar a solução de outros tipos de problemas de interpretação do CSS nos eReaders que usam esse “motor”, como o iBooks e o Stanza (iPad), mas não a utilize isoladamente para recursos fundamentais do livro, pois somente os eReaders com Webkit serão capazes de apresentá-los. O ideal seria mesmo que a especificação ePub (e o CSS que ela suporta) fosse implementada corretamente nos eReaders, mas até lá soluções como essa serão necessárias.

Padronização do visual do ePub: futuro distante

A dificuldade em se aplicar cores a um simples hyperlink mostra a complexidade em se produzir ePubs que fujam do default dos programas e busquem uma padronização no projeto visual do Livro eletrônico. Ainda estamos longe do estágio em que um arquivo com layout mais avançado seja lido de forma padronizada nos mais diversos eReaders. Quem sabe com a adoção do ePUB3 isso começa a se resolver. Até lá, muito teste e cautela na aplicação de estilos CSS para o ePub.